17 de novembro de 2009

"O dia da Consciência Negra veio para fortalecer nossa identidade"

naiara
Naiara Rodrigues Silveira, filha única de Oliveira Silveira



Em 1971, um dos fundadores do Grupo Palmares declarava o 20 de novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares, como a data máxima da comunidade negra brasileira. Este idealizador era Oliveira Silveira, pesquisador, poeta e historiador gaúcho. Sete anos depois, o 20 de novembro foi elevado ao Dia Nacional da Consciência Negra.

Foi neste ambiente de ativismo e contestação que Naiara Rodrigues Silveira, 40 anos, cresceu. Filha de Oliveira Silveira, o engajamento ao Movimento Negro foi uma conseqüência natural. Professora e supervisora de uma escola estadual, ela também é secretária geral da Associação Negra de Cultura (ANdC), fundada por seu pai em 1987.

Naiara já foi muito atuante no MN e, com a morte do pai em janeiro deste ano, teve sua atenção voltada para a organização do acervo de sua obra. O livro de Poemas de Oliveira Silveira, que será lançado na sexta-feira (20/11/2009), também contou com a participação de Naiara em sua elaboração.

Imprensa SJDS - Por que o movimento negro gaúcho resolveu buscar uma nova data para reverenciar a luta dos negros contra o regime escravagista, em substituição ao 13 de maio?

Naiara Rodrigues Silveira - O 13 de maio representa para a população negra um grande engodo. Uma lei que trouxe a liberdade de direito, mas não de fato. Os negros chegaram ao Brasil "seqüestrados" da África, sem absolutamente nada. Aqui, construíram o país. Com o advento da abolição da escravatura, foram "despejados", sem direito a nada (educação, propriedade, trabalho, etc.), enquanto os imigrantes receberam vários incentivos para virem para o Brasil: terras, gado, escola, entre outros. Portanto, essa data não trouxe dignidade ao povo negro.

Imprensa SJDS - Qual a importância de comemorar o Dia da Consciência Negra?

Naiara Rodrigues Silveira - Ser negro é muito além do tom de pele. É um jeito de ser, de viver e de entender a vida. Ter consciência de tudo isso nem sempre é um ato fácil em uma sociedade racista como a nossa. É muito difícil ser negro e assumir a negritude. É uma questão de auto-estima. Trezentos anos de escravidão dizendo que "tu não és gente" não poderia dar em outra coisa.

O Dia da Consciência Negra veio exatamente para marcar uma tomada de consciência de quem nós somos, através do fortalecimento de nossa identidade. Ainda não temos muito para comemorar, embora o Movimento Negro Gaúcho seja um dos mais atuantes do país. Temos muito a conquistar no campo da eqüidade e igualdade de oportunidades. Enquanto não chegamos lá, devemos comemorar o Dia da Consciência Negra, levando nossa resistência, mas também nossa cultura, que é a base da cultura brasileira.

Foi através da pesquisa do Grupo Palmares, onde militava Oliveira Silveira, o idealizador do "20 de Novembro", que essa data foi escolhida por ser o possível dia de morte de Zumbi dos Palmares. Nesta data comemoramos não a liberdade, mas a tomada de consciência de nosso povo sobre seu valor e sua contribuição a este país. Hoje, repetimos isso em memória de nossos ancestrais.

Imprensa SJDS - Você acredita que as comunidades negras aqui do Estado conseguiram preservar as suas características culturais, como a religião, por exemplo?

Naiara Rodrigues Silveira - Certamente, embora com muita dificuldade. Dizem os estudiosos que temos peculiaridades nos cultos africanos daqui que não são encontradas em outras partes do país. Temos duas grandes vertentes: uma definida como Angola Conguense e outra Yorubá ou Gegê Nagô, influenciada pela Nigéria e, em menor escala, pelo Benin. A presença destas religiões é ostensiva em todo o Estado. O Rio Grande do Sul possui o maior número de terreiros do Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Porém, acredito que nossa religião esteja ameaçada pela intolerância de algumas igrejas, principalmente pelas neo-pentecostais. A comunidade negra religiosa resiste bravamente, com lideranças de expressão no cenário religioso nacional. Os negros cultores destas religiões, que ainda mantém a autenticidade em suas atitudes e moradias, devem ser protegidos desta ameaça, assim como toda cultura afro-gaúcha.

Imprensa SJDS - Como você vê a figura do negro na identidade do gaúcho?

Naiara Rodrigues Silveira - A população negra no Brasil é de 48%, conforme pesquisa de auto-declaração do IBGE, mas, na verdade, sabemos que é bem maior. No Estado, ela chega a aproximadamente 16%, mas sua influência está emaranhada em todos os segmentos.

A figura do negro sempre foi vista como "menor" na construção da identidade do gaúcho. Isso se deve a uma postura preconceituosa em que somente as culturas alemãs, italianas, polonesas e outras, de origem branca, são consideradas como formadoras da comunidade gaúcha. Hoje sabemos da influência do negro em toda cultura sulista.

Ainda temos muito que caminhar e isso começa na escola, que ainda não conta a história do negro no RS e de seus heróis. Por isso, desejamos a implementação da lei que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira".

Imprensa SJDS - Como você avalia a atuação do Movimento Negro hoje e a inserção do negro na sociedade brasileira?

Naiara Rodrigues Silveira - O Movimento Negro vem crescendo em número, organização e ação. Nas décadas de 60 e 70, o movimento era de denúncia e resistência; hoje, ele é também propositivo. Graças a ele, houve avanços significativos em diversas áreas e temos adquirido, embora timidamente, a visibilidade e a inserção na sociedade. A conquista das ações afirmativas é uma delas. A luta não pára, irá continuar até que as diferenças se unam e não separem. Ser diferente sim, mas com direitos iguais.

www.sjds.rs.gov.br

5 de janeiro de 2009

Nasce um ancestral

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por Horácio Lopes de Moraes

Oliveira Silveira tipo raro dos pampas, referência que seguramente figurará entre as mais importantes para nós negros riograndenses, mesmo sem evocar toda aquela querela do gaúcho macho bagual. Não foi preciso isso.

Suas palavras mostraram a força que pode ter um negro apenas articulando pensamentos e nos deram a dimensão de quanto as nossas ações podem ser importantes pesquisando apenas uma data, dia 20. Além disso, todos que o conheceram sabem que seus gestos tinham ingredientes fartos daquilo que alicerça qualquer relação de respeito e confiança e que também muitos de nós temos a dificuldade em admitir que não a possuímos: humildade.

Por si só, as ações do poeta são ensinamentos valiosos que, para mim, transcederam a sua obra.Durante nossos últimos encontros, isso ficou evidente.

Na Liga da Canela Preta, dos tempos modernos, em novembro último, topo com o mestre me solicitando uma conversa e, ao vê-lo, vem à baila o que minha mãe alertava: ele não está bem, precisamos fazer algo.

Em outro sentido, me recebe com seu sorriso peculiar, seu apertar de mão e sua ascenada com a cabeça em tom positivo talvez mais peculiares ainda e me fala: "olha, sei que estás atrasado para o jogo, e acho que não vou ficar até que acabe, gostaria de te dizer que separei uma lista com nomes africanos como sugestão para o gurizão que está chegando..."

Já com sérias dificuldades físicas de locomoção, o cabelo todo branco, alvíssimo, e sem o seu porte que, há poucos meses, erguia uma compostura saudável de um homem "experiente", Oliveira precisava daquele encontro amigo comigo, assim como com todas as outras pessoas com as quais julgava necessário fazê-lo antes de...

Sim, com certeza ele sabia que poderia perder a luta no próximo round, o adversário, forte, não estava recuando e, muito pelo contrário, o fez reagir a contragosto dos seus pensamentos militantes para diminuir seu passo e cumprir o papel da despedida.

Mais projetos e aspirações o poeta ainda guardava, o nosso próprio nazi-hino sulino ele ainda gostaria de ver atingido por sua lança, de lanceiro negro, e ver virar hino, de verdade.

Ocorre que sair da travessia na esmagadora maioria das vezes não é como entrar nela a despeito da única certeza que temos em vida. De um lado se tem nove meses para prover condições tanto a nós quanto ao descendente; de outro, pode-se não ter sequer um instante para o último olhar, olhar que embaraça e faz confundir os sentidos de quem fica.

De fato, ainda pude ter a chance de me encontrar novamente com o mestre, já no hospital, para que me sugerisse uma dica fundamental no nome que eu e minha mulher escolhemos para o nosso filho, Aluiatã, que nascerá em fevereiro. O nome escolhido, em verdade, pela mãe terminava indígena sem a mudança que, segundo Oliveira, poderia transformá-lo em um anagrama yorubá, para assim dar sentido a Aluiatan (A_lui_atan).

Nesta ocasião, com muita dificuldade de manter-se acordado, fazia bastante esforço para não perder a linha de raciocínio enquanto dava explicações em torno do nome, apagava por até minutos, mas voltava justamente do ponto onde havia parado, como que remoendo pensamentos tão profundos quanto o arcabouço de vida que acumulou durante todos esses anos.

O professor... sempre a ensinar.

E não é que nesse dia vi até novela. Como ele mesmo dizia, o prazer infame que havia adquirido durante esses dias de malogro, passava "no doze", às oito da noite. Horário após o qual, no dia da visita, 30 de dezembro, eu e minha mãe decicimos nos despedir.

Dia 1º, à noite, ela atende o telefone e vem à minha direção com a notícia no semblante, "não deu". Pois aí é que pensei e, creio, Dona Vera concordará comigo: deu sim.

Nosso poeta soube como um exímio atleta passar o bastão. Homem com requintes da educação do interior, sim, ele fez questão de se despedir. A exemplo dos costumes que aprendeu, exerceu uma coerência que talvez explique seu próprio caráter, e que me impressiona muito. É algo que levarei adiante, e que meu filho já trará engendrado no nome.

É algo que a sociedade riograndense clama sem nem sequer se dar conta. É algo que o Brasil ainda verá transformado em feriado, em novembro. É algo de que, talvez, só o povo negro poderá dispor ao mundo com sua ancestralidade exclusivamente matriarcal.

Uma coerência que também se percebe no ciclo que persevera a "passagem" entre nós, dando início a uma vida, ao passo que aconchega outra que, neste caso, faz jus a um grande nascimento.

Dia 1º de janeiro de 2009 nasce nosso mais novo ancestral, o poeta digno de um cunho de lanceiro, negro: Oliveira Silveira.

2 de janeiro de 2009

OLIVEIRA SILVEIRA: POETA DA CONSCIÊNCIA NEGRA VIRA CONSTELAÇÃO

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Chove intensamente em Porto Alegre, então o evento que aconteceria neste sábado (03/01), em homenagem a Oliveira Silveira, foi trasnferido. Aguarde divulgação de nova data.
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Mesmo indo embora desse mundo, para virar constelação, Oliveira Silveira recebe homenagens.

Neste sábado (03/02) a partir das 18 horas, em frente a Prefeitura Municipal de Porto Alegre, acontereá um Saral Poético ao ar livre em homenagem ao pesquisador e poeta Oliveira Silveira que partiu, neste dia 02 de janeiro.

O evento contará com a presença de alguns dos maiores artistas negros do Rio Grande do Sul, cada um prestando, com sua arte, uma homenagem a vida, a obra e a personalidade cativante de Oliveira Silveira.

Histórias curiosas, fotos de acervo pessoais, depoimentos emocionados, dentro agregado a uma egrégora de cultura negra transversal, assim como a vida do pai do 20 de novembro.

O tributo é uma inciativa da Cufa-RS, em parceria com o Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do RS - CODENE, demais entidades com assento no conselho e várias entidades do movimento negro gaúcho e brasileiro, com o apoio da Prefeitura de Porto Alegre, da Secretaria da Cultura e da Secretaria da Justiça e do Desenvolvimento Social, através da COPIR.

PARTICIPE!

1 de janeiro de 2009

MORRE IDEALIZADOR DO DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA, em Porto Alegre

por Isabel Clavelin

Faleceu ontem (1/1/09), em Porto Alegre (RS), o professor, poeta e pesquisador gaúcho Oliveira Ferreira da Silveira. Era conhecido nacionalmente pelo 20 de Novembro - cujas comemorações se iniciaram em 1971 pelo Grupo Palmares, na capital gaúcha -, como data referência para os afro-brasileiros em contraponto ao 13 de Maio, Dia da Abolição da Escravatura.

O óbito ocorreu na noite do Dia Mundial da Paz por decorrência de câncer, no Hospital Ernesto Dornelles, onde estava internado há 15 dias. Natural de Rosário do Sul (RS), era formado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com especialização na língua francesa, e professor aposentado da rede pública de ensino. Era divorciado. Deixa filha e netos. Seu corpo será cremado nesta sexta-feira (2/1/09) em cerimônia reservada. As cinzas serão transportadas para sua cidade natal, de acordo com desejo expresso a familiares e amigos.

O 20 DE NOVEMBRO

Integrante de maior projeção do extinto Grupo Palmares, foi porta-voz da nascente data política para o Brasil, que fazia uma releitura histórica através da adoção de Zumbi dos Palmares como herói nacional. Estava em jogo a desconstrução do mito da liberdade concedida, substituído pela combatividade negra durante todo o período de escravização e pela denúncia da ação do racismo, do preconceito e da discriminação racial no Brasil.

O Grupo Palmares, fundado em 20 de julho de 1971, realizou uma série de atividades públicas - durante o regime militar - para evocação de ícones negros como Luiz Gama e José do Patrocínio. A reverência a Zumbi dos Palmares, ato de maior relevância daquele ano, ocorrera no Clube Náutico Marcílio Dias, em Porto Alegre, frequentado por negros. Em 1978, o 20 de Novembro foi elevado a Dia da Consciência Negra a partir da fundação do Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial (MNUCDR).

ATUAÇÃO CONTRA O RACISMO

Oliveira Silveira teve constante atuação no Movimento Negro através da militância política e da produção literária negra. Fundou o grupo Semba, a Associação Negra de Cultura e integrou o corpo editorial da revista Tição (publicação do Movimento Negro gaúcho no final dos anos (1970). Com presença marcante, participou da produção cultural gaúcha, compôs rodas de intelectuais e formadores de opinião. Fora homenageado em diversos eventos, entre eles a Feira do Livro de Porto Alegre.

Escreveu uma dezena de livros (Poema sobre Palmares, Banzo Saudade Negra, Pêlo Escuro, Roteiro dos Tantãs, entre outros), e inúmeros poemas acerca da vida dos negros no Rio Grande do Sul e sobre a questão negra de forma geral. Uniu-se a ativistas culturais e políticos através de sua obra poética, como Pedro Homero, Oswaldo de Camargo, Paulo Colina, Cadernos Negros. Sua produção correu o mundo, com coletânea de autores negros publicada na Alemanha e poesias registradas em revistas de universidades dos Estados Unidos (Virgínia e Califórnia).

Foi conselheiro de notório saber em relações étnico-raciais do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR) da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir), no período 2004-2008. Atualmente, colaborava com a Secretaria por meio de consultoria acerca da preservação dos clubes negros como patrimônio material e imaterial afro-brasileiro. Dedicava-se, também, ao informativo eletrônico Negraldeia (http://www.negraldeia.blogspot.com/) juntamente com Evandoir dos Santos.

Frequentador assíduo dos clubes negros gaúchos, como a Sociedade Beneficente Cultural Floresta Aurora e a Associação Satélite Prontidão, Oliveira Silveira foi o idealizador e articulador do 1º Encontro Nacional de Clubes Negros, em 2006. Mapeou mais de 70 entidades desse seguimento existentes no País.

SIMPLICIDADE

Era entusiasta da causa negra, como ele próprio preferia denominar. Militante negro. Lutava contra o racismo. Colaborativo, tinha perfil agregador e encantava a todas as pessoas com suas histórias de um período elementar para o Movimento Negro brasileiro. Vivia num apartamento na avenida Assis Brasil, zona Norte de Porto Alegre, repleto de livros e pilhas de revistas e jornais - referências para estudos, aprendizado e ensino de uma vida.

Gostava de registrar fatos e acontecimentos, de longas conversas e de coisas simples, como os passeios com o neto Tales ou pelo Centro de Porto Alegre, com paradas estratégicas no Mercado Público, na Esquina Democrática, na Rua da Praia e no Centro de Cultura Mário Quintana, onde era encontrado por quem quisesse desfrutar de sua agradável companhia. Um homem negro especial que, como bem disse uma militante negra gaúcha, virou estrela.

MAIS SOBRE OLIVEIRA SILVEIRA, por ele mesmo

Trechos de entrevista concedida a Jader Nicolau, do Portal Afro

20 DE NOVEMBRO

"O 20 de novembro começou a ser delineado em encontros informais na Rua dos Andradas, aqui em Porto Alegre. Estávamos em 1971. Reuníamo-nos e falávamos muito a respeito do 13 de maio, do fato desta data não ter um significado maior para a comunidade. A partir desta constatação comecei a procurar outras datas que fossem mais significativas para o movimento. Comecei a estudar a fundo a história do negro e constatei que a passagem mais marcante era o Quilombo dos Palmares. Como não haviam datas do início do quilombo, tampouco do nascimento de seus líderes, optei pelo 20 de novembro. Colhi esta informação numa publicação da Editora Abril dedicada a Zumbi, que dava esta data como a de seu assassinato, em 1665. Por ser uma revista, não se apresentava como fonte segura. Resolvi pesquisar um pouco mais, como forma de garantia. mais adiante, no livro "Quilombo dos Palmares", de Edson Carneiro, a data se repetia. Considerei esta fonte segura, pela importância do autor. Além disto, tive acesso a um livro português que transcrevia cartas da época, numa delas era relatada a morte de zumbi, em 20 de novembro de 1665. A partir de então colocamos em ação nossas propostas. Batizamos o grupo de Palmares e registramos seu estatuto, em julho. No dia 20 de novembro do mesmo ano (1971), evocamos pela primeira vez o "Dia Nacional da Consciência Negra", na sede do Clube Marcílio Dias."Há pessoas que imaginam que o Grupo Palmares tenha chegado ao 20 de Novembro através da obra de Décio Freitas, historiador branco que escreveu "Palmares, A Guerra dos Escravos", livro que teve o mérito de pesquisar mais a fundo a vida de Zumbi. O fato é que quando decidimos pela data, não conhecíamos nem Décio Freitas nem sua obra, ele a havia editado no Uruguai, durante o exílio, em agosto de 1971. A decisão de nosso grupo, portanto, é anterior a publicação de seu livro."


O GOSTO PELAS LETRAS

"A literatura surgiu em minha vida na época em que ainda morava em Rosário. Minha infância foi marcada pela poesia popular, quadrinhas e versos de polca entoados durante os bailes campeiros. Ritmos típicos do meio rural gaúcho. É um momento especial, onde as mulheres tiram os homens para dançar e aí se cantam versos, o par diz uma quadrinha um para o outro, começando pelo rapaz e respondida pela moça. Também me lembro dos "causos" contados pelos mais velhos na cozinha, ao redor do fogareiro. Essas narrativas são um substrato da minha literatura."

Mais adiante tive contato com livros e comecei a escrever. Em 1958 publiquei meu primeiro poema, num jornal de Rosário. Isto foi muito importante para o início de minha carreira. A partir dos estímulos recebidos de amigos continuei a escrever poemas regionalistas, que marcam até hoje meu estilo. Não me desvinculei desta linguagem rural. Claro que depois experimentei outras tendências, até chegar na poesia negra, na medida em que me conscientizava".


OLIVEIRA EM VERSOS

Roteiro dos Tantãs

ENCONTREI MINHAS ORIGENS

Encontrei minhas origens
em velhos arquivos
....... livros
encontrei
em malditos objetos
troncos e grilhetas
encontrei minhas origens
no leste
no mar em imundos tumbeiros
encontrei
em doces palavras
...... cantos
em furiosos tambores
....... ritos
encontrei minhas origens
na cor de minha pele
nos lanhos de minha alma
em mim
em minha gente escura
em meus heróis altivos
encontrei
encontrei-as enfim
me encontrei

Música para Oliveira Silveira, de Deise Benedito

"Angola Congo Benguela Monjolo Cabinda Mina Quiloa Rebolo
Aqui onde estão os homens
Há um grande leilão
Dizem que nele há
Um princesa à venda
Que veio junto com seus súditos
Acorrentados num carro de boi
Aqui onde estão os homens
Dum lado cana de açúcar
Do outro lado o cafezal
Ao centro senhores sentados
Vendo a colheita do algodão tão branco
Sendo colhidos por mãos negras
Eu quero ver
Quando Zumbi chegar
O que vai acontecer
Zumbi é senhor das guerras
È senhor das demandas
Quando Zumbi chega e
Zumbi É quem manda"


Obrigado meu amigo Oliveira Silveira, por tudo o que vc representa, na grandeza da sua suprema humildade, na sabedoria das suas palavras na sua ousadia de resgatar o nosso heroi nacional Zumbi dos Palmares. O céu ganha mais uma estrela para iluminar os nossos caminhos! Valeu Oliveira Silveira. Valeu Zumbi! Vamos aguardar quando Zumbi chegar! Leve minha saudade. Afro abraços Deise Benetido

Morre idealizador do Dia da Consciência Negra

Morreu no último dia 1º de janeiro, em Porto Alegre (RS), o professor, poeta e pesquisador gaúcho Oliveira Ferreira da Silveira, conhecido nacionalmente por ser o idealizador do Dia da Consciência Negra, que acontece no dia 20 de novembro. A data, cujas comemorações se iniciaram em 1971 pelo Grupo Palmares, na capital gaúcha - é referência para os afrobrasileiros em contraponto ao 13 de Maio, Dia da Abolição da Escravatura.

O pesquisador morreu aos 67 anos, em decorrência de câncer. Ele estava internado havia 15 dias no Hospital Ernesto Dornelles. Natural de Rosário do Sul (RS), era formado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com especialização na língua francesa, e professor aposentado da rede pública de ensino.

Integrante de maior projeção do extinto Grupo Palmares, Oliveira Silveira foi porta-voz da data política de 20 de novembro para o Brasil, que adotava Zumbi dos Palmares como herói nacional. Estava em jogo a desconstrução do mito da liberdade concedida, substituído pela combatividade negra durante todo o período de escravização e pela denúncia da ação do racismo, do preconceito e da discriminação racial no Brasil.

O Grupo Palmares, fundado em 20 de julho de 1971, realizou uma série de atividades públicas durante o regime militar para evocação de ícones negros como Luiz Gama e José do Patrocínio. A reverência a Zumbi dos Palmares, ato de maior relevância daquele ano, ocorrera no Clube Náutico Marcílio Dias, em Porto Alegre, frequentado por negros. Em 1978, o 20 de Novembro foi elevado a Dia da Consciência Negra a partir da fundação do Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial .

Racismo - Oliveira Silveira teve constante atuação no movimento negro por meio da militância política e da produção literária negra. Fundou o grupo Semba, a Associação Negra de Cultura e integrou o corpo editorial da revista Tição (publicação do Movimento Negro gaúcho no final dos anos 1970). Com presença marcante, participou da produção cultural gaúcha, compôs rodas de intelectuais e formadores de opinião. Foi homenageado em diversos eventos, entre eles a Feira do Livro de Porto Alegre. O pesquisador também escreveu uma dezena de livros e inúmeros poemas acerca da vida dos negros no Rio Grande do Sul e sobre a questão negra de forma geral.

Foi conselheiro de notório saber em relações étnico-raciais do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR) da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir), no período de 2004 a 2008. Atualmente, colaborava com a Secretaria por meio de consultoria acerca da preservação dos clubes negros como patrimônio material e imaterial afro-brasileiro.

A deputada Janete Rocha Pietá (PT-SP) afirmou nesta sexta-feira que Oliveira Silveira morreu depois de cumprida uma missão. "Ele morreu depois de o Congresso aprovar o dia 20 de novembro como o Dia Nacional da Consciência Negra e reconhecer Zumbi dos Palmares como herói nacional. Valeu a luta. À família nossas condolências. O professor morre com a missão cumprida", afirmou.

30 de dezembro de 2008

VOTO DE APLAUSO AO PROFESSOR OLIVEIRA SILVEIRA

por PAULO PAIM

Conforme matéria da Radiobrás, assinada pelo jornalista João Carlos Rodrigues, o professor e poeta Oliveira Silveira foi o primeiro brasileiro a sugerir que o dia 20 denovembro – data da morte de Zumbi do Palmares – fosse adotado como dia de celebração da luta da comunidade negra brasileira.

Em plena ditadura militar, um pequeno grupo de cidadãos negros costumava se reunir no centro de Porto Alegre para discutir a situação dos descendentes de africanos no Brasil. Nessas conversas, eles concluíram que o 13 de maio – Dia da Abolição da Escravatura, assinada pela princesa Isabel, em 1888 – não tinha maior significado.

Era preciso, então, encontrar uma nova data para reverenciar a luta da população negra brasileira e enaltecer sua participação na sociedade. Nascia, assim, o 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, data de evocar a figura de Zumbi e o Quilombo de Palmares e de discutir a situação do negro no país.

Entre os participantes do grupo estava o poeta, professor de português e militante da causa negra, Oliveira Silveira. Foi ele quem sugeriu que o 20 de novembro, data da morte de Zumbi do Palmares, fosse adotado como dia de celebração da luta da comunidade negra brasileira. Sete anos depois, o Movimento Negro Unificado Contra Discriminação Racial (MNUDR) oficializou o 20 de novembro como o Dia da Consciência Negra.

Ex-integrante do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, Oliveira Silveira já publicou vários livros.T ambém é autor do capítulo 20 de novembro, história e conteúdo, do livro Educação e Ações Afirmativas: entre a Injustiça Simbólica e a Injustiça Social, organizado pelos professores Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva e Valter Roberto Silvério, da Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo.

Um verso do poeta Oliveira Silveira que muito me emociona é:
Encontrei as minhas origens
Na cor de minha pele
Nos lanhos de minha alma
Em mim
Em minha gente escura
Em meus heróis altivos
Encontrei
Encontrei-as enfim
Me encontrei”


SENADO, Sala das Sessões, 20 de novembro de 2008.

19 de dezembro de 2008

Oliveira Silveira lança “Bandone do Caverá”

bandole
Na foto Adauto (E) com um amigo e o bandônio com o qual ficou conhecido.

O escritor rosariense Oliveira Silveira, residente na capital do RS, lançou no início do mês o poemeto “Bandone do Caverá” homenageando a memória de seu tio Adauto Costa Ferreira, ídolo musical do autor. Adauto que residiu no Touro Passo, Caverá tocava gaita de 8 e 12 baixos, além da de 2 baixos, com dez teclas, entre eles o Bandônio, gaita argentina comprada em Rivera, Uruguai. A tiragem limitada finaliza um projeto datado de 1986.

11 de dezembro de 2008

20 DE NOVEMBRO: Projeto de Lei de Feriado

PROJETO DE LEI FERIADO NACIONAL
http://www.camara.gov.br/sileg/integras/181461.pdf


PROJETO DE LEI n.º 209 / 2008

Autora: Lurdinha Salvador Ginetti e outros vereadores
Assunto: Fica instituído no Município de Americana “SEMANA DA CONSCIÊNCIA NEGRA”.

De iniciativa da Vereadora Lurdinha Salvador Ginetti, eu, Dr. Erich Hetzl Júnior, Prefeito Municipal de Americana Estado de São Paulo, depois de aprovado pela Câmara Municipal do Município de Americana, promulgo a seguinte Lei:

Art 1°- Fica instituída, no âmbito do Município de Americana, a “Semana da Consciência Negra”, a ser comemorado, anualmente, na semana que incide o dia 20 de novembro.

Art 2° - A “Semana da Consciência Negra” passará a constar do Calendário Oficial de Eventos da cidade de Americana.

Art. 3° - Na comemoração da “Semana da Consciência Negra”, previsto no art. 1º desta Lei, o Poder Executivo promoverá, através das Secretarias de Cultura e Educação, a realização de campanhas de integração e eventos para disseminação da cultura afro-brasileira, em especial da luta dos negros africanos no Brasil e da história de “Zumbi dos Palmares– Um Grande Herói Nacional”, com o apoio da ACIA – Associação Comercial e Industrial de Americana, do SINDITEC – Sindicato das Indústrias de Tecelagens de Americana, Nova Odessa, Santa Bárbara D´ Oeste e Sumaré.

Art. 4º - As despesas decorrentes da execução desta Lei correrão por conta das dotações orçamentárias próprias, suplementadas se necessário.

Art. 5º - Esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições contrárias.

Plenário Dr. Antônio Álvares Lobo, em 11 de dezembro de 2008.
Lurdinha Salvador Ginetti, Vereadora PDT

JUSTIFICATIVA

SENHORES MEMBROS DA CÂMARA MUNICIPAL,

1. INTRODUÇÃO


Trata a presente propositura do projeto de lei que institui, no Município de Americana, a “SEMANA DA CONSCIÊNCIA NEGRA” como semana de atividades da cultura afro-brasileira a ser comemorado, anualmente, na semana do dia 20 de novembro.

A iniciativa da matéria se insere dentre aquelas do tipo geral ou concorrente, nos termos do art. 38, “caput”, da LOM, atendidas, no caso, as demais regras do processo legislativo para sua propositura.

2. DO PROJETO DE LEI

O projeto de lei em questão objetiva instituir, no Município de Americana, a “SEMANA DA CONSCIÊNCIA NEGRA” como semana de atividades da cultura afro-brasileira a ser comemorado, anualmente, na semana do dia 20 de novembro, data esta da morte do líder quilombola Zumbi dos Palmares.

É meritória a iniciativa de tal projeto, pois confere à luta histórica de milhões de negros e negras africanos e afro descendentes contra o racismo e a exclusão social, decorrentes da escravidão e do colonialismo europeu.

Faz-se necessário algumas digressões para rememorar e, pari passu, declinar os devidos créditos aos movimentos sociais negros e às centenas de personalidade que ofertaram a sua vida militante em nome de uma causa que ainda hoje labuta por um reconhecimento à altura da contribuição social do negro, na formação da sociedade brasileira e na construção do nosso país.

O ex-Senador Abdias do Nascimento, em seu informe de produção legislativa de setembro/dezembro de 1997, editado pelo Senado Federal, fala com propriedade da contribuição definitiva dos movimentos sociais negros na consolidação de uma consciência e de uma identidade racial negra, rumo à reconstrução do Líder negro Zumbi dos Palmares, in verbis:

Dezenas de organizações afro-brasileiras surgiram na primeira metade daquela década no Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, São Paulo e Porto Alegre – para não falar da Frente Negra, do Teatro Experimental do Negro e de tantas outras entidades precursoras, de um tempo em que a luta negra não se chamava “movimento”. Uma das mais importantes dessas organizações, pela ousadia e pioneirismo de suas propostas, é o Grupo Palmares, fundado em 20 de julho de 1971 por Antônio Carlos Cortes, Ilmo da Silva, OLIVEIRA SILVEIRA e Vilmar Nunes. Ousadia por desafiar abertamente o regime ditatorial instalado em 1964, para o qual a questão racial constituía uma espécie de anátema. E pioneirismo por levantar a bandeira 20 de Novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares, em 1695, como o “Dia Nacional da Consciência Negra”.

Neste nível de raciocínio e entendimento, nosso grande Abdias, um dos maiores lutadores sociais negros deste século, indica o artigo de um dos fundadores do Grupo Palmares, o poeta Oliveira Silveira, intitulado “A idealização do 20 de Novembro”, que fora publicado em novembro de 1993 na Gazeta Afro-Latina, a seguir reproduzido:

A data de 20 de novembro vem sendo evocada no Brasil há 22 anos. E há 15 anos é chamada Dia Nacional da Consciência Negra. Tudo começou em Porto Alegre no ano de 1971, quando o Grupo Palmares assinalou a data realizando ato em homenagem ao Estado Negro dos Palmares e propondo uma alternativa para as infundadas comemorações do dia 13 de maio. A denominação Dia Nacional da Consciência Negra, dada pelo MNUCDR sete anos mais tarde, em 1978, foi uma conseqüência do trabalho do Grupo Palmares, de Porto Alegre.

O Grupo Palmares nasceu na Rua Tomás Flores, 303, bairro Bom Fim, onde foi realizada a primeira reunião em 20 de julho de 1971. Isso acontecera após vários bate-papos na Rua da Praia, quando um dos maiores contestadores do 13 de maio era um preto alto chamado Jorge Santos ou Jorge dos Santos, ator nato, não burilado. Mas ele não foi à reunião inicial nem se integrou ao grupo. Sua contribuição foi essa de alimentar as discussões informalmente. Os iniciadores do grupo em 20 de julho foram Antônio Carlos Cortes, Ilmo da Silva, Oliveira Silveira e Vilmar Nunes.

Depois foram chegando outras pessoas, como as universitárias Anita Leocádia Prestes Abad e Nara Helena Medeiros Soares (falecida). Elas participavam do grupo no primeiro ato evocativo do 20 de novembro. Segundo o documento contendo a programação, Ilmo já se afastara, mas Vilmar e Cortes ainda continuavam. Cortes não acompanhou toda a trajetória do Grupo Palmares em sua primeira fase, que se estendeu até 1978. Mais tarde surpreendeu optando por uma linha político-partidária direitista, mas conservou uma postura negra. Helena Vitória dos Santos Machado compareceu ao primeiro vinte e depois ingressou no grupo, foi coordenadora e uma das principais responsáveis pela linha do grupo no nível das idéias, ao lado de Anita (durante o tempo em que atuou) e de Marisa Souza da Silva.

É longa a lista de pessoas que trabalharam no Palmares ou tiveram uma passagem por ele: Antônia e Marli Carolino, Gilberto Alves Ramos, Maria Conceição Fontoura, Margarida Martimiamo, Irene F, Santos, Leni Souza, Otacílio R. Santos, Rui R. Moraes, Vera Daisy Barcellos, Ceres Santos, Hilton Machado... Todos na lista sujeita a omissões incluída no folheto Palmar Palmares (Porto Alegre, Associação Negra de Cultura, 1991). Haveria uma segunda fase como grupo de trabalho (GT Palmares) do Movimento Negro Unificado na década de 80 e uma terceira, já desligado do MNU, fase em que surgiu (e teria sido como decorrência do Palmares) o trabalho musical do grupo Coisapreta. Helena e Marisa, articuladoras nessa fase iniciada em 1987, poderão dizer se ela se encerrou ou se o trabalho do Grupo Palmares ainda continua de forma silenciosa ou indireta...

O grupo tomou o nome de Palmares em homenagem ao Estado negro livre do século XVII, reconhecido como “momento maior” na história do negro no Brasil. Dentro do grupo, quem sugeriu a data de 20 de novembro, dia da morte heróica de Zumbi, foi o componente Oliveira, com base em livros de Edison Carneiro e Ernesto Ennes, além de um dos fascículos da coleção Grandes personagens de nossa história, da Editora Abril, número dedicado a Zumbi.

A importante obra de Clóvis Moura, Rebeliões da senzala, não chegou a ser consultada na época. Também é oportuno observar que o historiador branco Décio Freitas só ficou conhecido do grupo no dia do ato em 20 de novembro de 1971, quando compareceu por ter lido a notícia na imprensa. Na ocasião, ofereceu um exemplar de Palmares – La guerrilla negra, edição uruguaia. Só a partir daí sua obra iria contribuir para o trabalho do grupo que mais adiante encarregou o componente Oliveira de apresentar o autor ao editor para a primeira edição em português de Palmares – a guerra dos escravos, pela Editora Movimento. Realizado o primeiro ato evocativo do vinte, em 71, o trabalho não parou. Ao lado de outras promoções feitas ao longo de cada ano, o Palmares continuou assinalando e divulgando a data.

A prática foi sendo adotada no centro do país, especialmente em São Paulo e Rio. Sete páginas da “Revista ZH” do jornal Zero Hora de Porto Alegre em 1972; espetáculo musical, exposição de pintura e palestra em 1973 (além de entrevista concedida a Alexandre Garcia, o mesmo da TV Globo, então na sucursal do Jornal do Brasil em Porto Alegre, publicada em 13 de maio); manifesto através do Jornal do Brasil (novamente Alexandre Garcia), com idéias do grupo, histórico de Palmares – Estado, a proposta de reformulação dos livros didáticos quanto à história do negro, em 1974; encontro cultural (com o grupo artístico Afro-Sul) em 1975; livreto Mini-história do negro brasileiro no vinte de 1976; e evento cultural na Associação Satélite-Prontidão (de negros) com a presença de Oswaldo Camargo, escritor paulista, minibiblioteca e grupo Nosso Teatro (depois Razão Negra), em 1977 – são fatos que mostram a ação continuada e decidida do Grupo Palmares em prol da consolidação de sua proposta em nível local e nacional.

Quando em 1978 se formou o Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial (MNUCDR) e propôs num congresso seu, em Salvador-BA que a data fosse chamada Dia Nacional da Consciência Negra, já se iam sete anos de trabalho duro do Grupo Palmares, reconhecido e seguido por outras entidades do país. O MNUCDR, depois MNU, apenas batizou a data com uma expressão feliz e contribuiu para ampliar o seu âmbito. No manifesto de Salvador, entretanto, nenhuma referência foi feita ao Grupo Palmares e seu pioneirismo. Só em 1981, em sua revista nº 3 em 1988 no jornal Nego de abril e em 1991, também em seu jornal e no transcurso dos “20 anos do vinte”, é que o MNU abriria espaço para fazer justiça ao grande esforço político do grupo sulino.

Uma das fundadoras do MNU, a antropóloga Lélia Gonzáles, refere "ao alerta geral do Grupo Palmares” e a proposta gaúcha nas páginas 31 e 57 de seu importante trabalho Lugar de negro, em parceria com Carlos Hasenbalg (Rio, Marco Zero, 1982). Mas grande parte do Movimento Negro nacional parece desconhecer a iniciativa sul-riograndense de 1971 e sua continuidade. Como que paira a idéia de que tudo começou em 1978, quando o que houve então foi uma convergência para um novo estágio da luta, em que o MNU desempenhou, sim, um papel fundamental.

O Movimento Negro brasileiro (como por influência negra norte-americana se passou a chamar a luta mantida sempre, no escravismo e na pós-abolição) hoje pode registrar como marco inicial de uma outra fase o ano de 1971, quando surgiu uma nova e decisiva força motivadora e aglutinadora: a evocação do vinte de novembro.

Algumas distinções:

O Palmares foi sempre um grupo de negros e com isso legitimou sua proposta como iniciativa gerada no seio da comunidade negra e por ela imposta à sociedade. Há grupos que preferem ser mistos e assim perdem às vezes a oportunidade de marcar sua ação política como genuinamente negra.

Parece que o Movimento Negro (MN) não quis assimilar bem a proposta do Grupo Palmares relativamente ao vinte. O MN individualiza (há exceções), ressaltando a figura de Zumbi, na linha da historiografia oficial, que destaca indivíduo, o herói singular, como se fizesse tudo sozinho.

Individualismo, coisa tão cara ao sistema capitalista. O grupo Palmares sempre valorizou e destacou Zumbi como o herói nacional que é, mas preferiu sempre centrar a evocação no coletivo – 20 de Novembro, dia da morte heróica de Zumbi. E afinal o Estado negro foi uma criação coletiva da negrada.

O 20 de Novembro traz também um possível perigo: seu uso pelo oficialismo e por outros setores ou instituições sociais. O capitalismo tem o poder de absorver bem os golpes que lhe são desferidos. E o poder de recicla-los, redirecionando-os, utilizando-os a seu favor. Quem, como e por que, ou para que, está empenhando a bandeira do vinte? É bom saber, em cada situação. A revista Tição já alertava para isso em 1979, no seu segundo número.

E vem aí o ano de 1995. Estão falando em 300 anos da morte de Zumbi. Não seria mais afirmativo falar em quatro séculos de Palmares ou em 400 anos do início de Palmares (já que tudo começou lá por 1595, se não fosse antes)?

Vinte de novembro de 1695, data da morte heróica de Zumbi, marco para delimitar no tempo um Estado negro, território livre ao longo de todo um século – o XVII – lá na Região Nordeste. O Palmar, a Angola Janga...”

É importante registrar que, no Brasil, diversas casas legislativas estaduais e municipal tem reconhecido o valor simbólico e histórico da data, fazendo valer através de proposições legislativas, o dia 20 de novembro como data símbolo alusivo à consciência negra no Brasil. Importa observar nos textos das leis, a riqueza política e cultural deste símbolo que ultrapassa os muros da história oficial, se revelando como uma das grandes datas nacionais no Brasil, lembrando o líder maior da luta pela libertação dos negros escravizados em nosso País, Zumbi dos Palmares.

Dentre as Leis Municipais já aprovadas sobre o 20 de novembro e Projetos de Lei Municipais sobre o mesmo tema, vale destacar:

- Lei Municipal n° 7.466, de outubro de 1989, do Município de Belém, que Institui o Dia Municipal da Consciência Negra e dá outras providências.

- Lei Municipal nº 11.128 de 14 de Janeiro de 2002, do Município de Campinas, cuja autoria inicial era do Vereador Sebastião Arcanjo, que "Institui o dia 20 de novembro Dia da Consciência Negra, com feriado Municipal, no Município de Campinas."

- Lei Municipal nº 3.789, de 1992, do Município de Florianópolis, que "Institui o Dia Municipal da Consciência Negra"

- Projeto de Lei nº 229, de 1991, da Câmara Municipal de Porto Alegre que “Institui a Semana da Consciência Negra no Município de Porto Alegre e dá outras providências.”

- Projeto de Lei nº 22, de 2003, de autoria do Vereador Darci Simões que "Dispõe sobre a comemoração do "Dia da Consciência Negra" revogando a Lei nº 2.684, de 19 de julho de 2002, em todos os seus termos e dando outras providências".

Também em vários Estados existem Leis Estaduais aprovadas sobre a temática e projetos de lei instituindo o dia 20 de novembro como dia Estadual da consciência negra, valendo citar:

- Lei Estadual nº 11990, de 1995, do Estado de Minas Gerais, que "Institui o Dia Estadual da Consciência Negra e dá outras providências";

- Lei Estadual nº 8.352, de 11 de setembro 1987, do Estado do Rio Grande do Sul, que Institui o "Dia Estadual da Consciência Negra"

- Projeto de Lei 188, de 2002, que Institui a "Semana de Estudos da Consciência Negra", de autoria do Vereador Ítalo Cardoso;

- Projeto de Lei nº 3.408, de 2002, do Deputado Estadual Wolney Trindade, que "Dá nova redação ao Art. 1º da Lei nº 4007/2002, de 11 de novembro 2002";

- Lei Estadual nº 7.968, de 22 de julho de 1992, do Estado de São Paulo, que Institui o "Dia da Consciência Negra", e dá outras providências.

A medida é justa e resta evidente que a “SEMANA DA CONSCIÊNCIA NEGRA” é a consolidação de algo que se tornou um fato social legitimado nacionalmente, reconhecido por diversos governos estaduais e municipais, que coloca em seu devido lugar a história, a cultura, os valores, os costumes e as lutas do povo negro no Brasil e por isto, deve merecer a atenção desta Casa Legislativa.


3. CONCLUSÃO

Concluindo, submetemos o presente Projeto de Lei nº 200/2008 à elevada apreciação dos nobres vereadores que integram o Legislativo municipal, na expectativa de que, após regular tramitação, seja a final deliberado e aprovado na devida forma regimental.


É o projeto.

Plenário Dr. Antônio Álvares Lobo, em 11 de dezembro de 2008.

Lurdinha Salvador Ginetti
Vereadora PDT

20 de novembro de 2008

Poeta explica por que comemorar Dia da Consciência Negra em 20 de novembro

por João Carlos Rodrigues

Repórter da Agência Brasil

Em plena ditadura militar, um pequeno grupo de cidadãos negros costumava se reunir no centro de Porto Alegre para discutir a situação dos descendentes de africanos no Brasil. Nessas conversas, eles concluíram que o 13 de maio - Dia da Abolição da Escravatura, assinada pela princesa Isabel em 1888 - não tinha maior significado. Era preciso, então, encontrar uma nova data para reverenciar a luta da população negra brasileira e enaltecer sua participação na sociedade. Nascia, assim, o 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra - data de evocar a figura de Zumbi e o Quilombo de Palmares e de discutir a situação do negro no país.

Entre os participantes do grupo estava o poeta, professor de português e militante da causa negra Oliveira Silveira. Foi ele quem sugeriu que o 20 de novembro - data da morte de Zumbi do Palmares - fosse adotado como dia de celebração da luta da comunidade negra brasileira. Sete anos depois, o Movimento Negro Unificado contra Discriminação Racial (MNUDR) oficializou o 20 de novembro como o Dia da Consciência Negra.

Ex-integrante do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, Oliveira Silveira já publicou vários livros. Também é autor do capítulo 20 de novembro, história e conteúdo, do livro Educação e Ações Afirmativas: entre a Injustiça Simbólica e a Injustiça Social, organizado pelos professores Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva e Valter Roberto Silvério, da Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo.

Nesta semana, Oliveira Silveira conversou por telefone, de Porto Alegre, com a Agência Brasil. A seguir, os principais trechos da entrevista na qual ele relembra como surgiu o 20 de novembro, avalia a atuação do movimento negro brasileiro, condena a miscigenação e adverte: “O racismo não desaparece. Pode até se aquietar, mas sempre está vivo e atuante.”

Agência Brasil: Por que o movimento negro gaúcho resolveu buscar uma nova data para reverenciar a luta dos negros contra o regime escravagista, em substituição ao 13 de maio?

Oliveira Silveira: Isso ocorreu em 1971. Estávamos insatisfeitos com o 13 de maio. Havia um grupo de negros que se reunia na Rua da Praia [no centro de Porto Alegre] e o nosso assunto, invariavelmente, era a questão negra e o fato de o 13 de maio não ter maior significação para nós. Logo, surgiu a idéia de que era preciso encontrar outra data. Eu, como gostava de pesquisar, aprofundei-me nisso. E encontrei material, cuja fonte era Édison Carneiro, autor do livro O Quilombo dos Palmares, indicando que Zumbi dos Palmares havia sido morto em 20 de novembro [de 1695]. Essa informação foi confirmada no livro As guerras dos Palmares, do português Ernesto Ennes, no qual foram transcritos documentos. Já que não sabíamos o dia de seu nascimento ou do início de Palmares, tínhamos pelo menos a data da morte de Zumbi, o último rei do quilombo de Palmares, Alagoas. Então, promovemos uma reunião, que originou o Grupo Cultural Palmares, cuja idéia era fazer um trabalho para reverenciar Palmares e Zumbi como algo mais representativo que 13 de maio.

ABr: Qual a crítica que vocês faziam e ainda fazem ao 13 de maio?

Oliveira: Nós vimos logo que o 13 de maio teve conseqüências práticas. Não havia medidas efetivas voltadas à comunidade negra. Foi uma liberdade que apareceu apenas na lei e nada de concreto ocorreu depois. Ao mesmo tempo, era uma data oficial, que o oficialismo governamental queria que fosse comemorada, celebrada, com homenagens à princesa Isabel. Ao passo que Palmares significava uma liberdade conquistada na luta, que durou um século inteiro, e, por isso, era plena de significado. Os homens e mulheres quilombolas fizeram um trabalho de resistência, de afirmação da dignidade humana sem precedentes, de luta pela defesa da liberdade. Então, não havia dúvidas de que aquela era a principal passagem da história do negro no Brasil.

ABr: Quando foi realizado o primeiro ato para reverenciar Zumbi e Palmares?

Oliveira: Como o Grupo Palmares havia se disposto a trabalhar a partir de datas e já estávamos em julho de 1971, resolvemos homenagear primeiro o poeta e abolicionista Luiz Gama, que morreu em 24 de agosto, e mais adiante, em outubro, homenageamos o nascimento do poeta e abolicionista José do Patrocínio. Em novembro, fizemos a homenagem a Palmares. À época, o Grupo Palmares tinha quatro pessoas e depois entraram mais duas mulheres. Por isso, consideramos que o grupo fundador foi formado por seis pessoas, que fizeram esse trabalho em 1971, quando homenageamos Luiz Gama, Patrocínio e Zumbi e Palmares. O Grupo Palmares realizou, então, no Clube Náutico Marcílio Dias, em Porto Alegre, o primeiro ato evocativo a Zumbi e a Palmares. Foi o início de um trabalho que teve continuidade ao longo dos anos.

ABr: Quando o restante do país começou a reverenciar o 20 de novembro?

Oliveira: Inicialmente foi só o Rio Grande do Sul, mas graças à divulgação, com o apoio da imprensa, a data foi se tornando conhecida. Em 1975 e 1976, São Paulo, com grupos de teatro de Campinas e da capital paulista, e o Rio de Janeiro começaram a celebrar o 20 de novembro. De modo que foi se implantando o 20 de novembro no país. Até que em 1978 surgiu a idéia de formar o coletivo de organizações negras denominado MNUDR - Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial. Foi a tentativa de uma organização que reunia algumas entidades, entre as quais algumas já celebravam o 20 de novembro. No final de 1978, numa assembléia na Bahia, foi proposta a denominação de Dia Nacional da Consciência Negra em 20 de novembro. Foi uma idéia feliz de Paulo Roberto dos Santos, um militante do Rio de Janeiro. Então, aquilo fez com que o 20 de novembro se consolidasse [como data de celebração a Zumbi e a Palmares e de afirmação da comunidade negra brasileira], mas foi um trabalho contínuo do Grupo Palmares. Foi também o coroamento de um trabalho realizado no Rio Grande do Sul pelo Grupo Palmares e que se tornou importante, porque foi adotado pelo movimento negro em nível nacional.

ABr: O que representou o resgate da figura de Zumbi e do quilombo de Palmares na luta do negro em busca da cidadania plena e de sua auto-estima?

Oliveira: Foi extremamente significativo, porque o 20 de novembro se mostrou como algo com uma força aglutinadora muito grande. Com isso, muitos grupos se formaram e muitas atividades passaram a ser desenvolvidas. Em São Paulo, por exemplo, criou-se o Festival Comunitário Negro Zumbi, que promovia atividades em cidades do interior. Foi uma motivação muito positiva, especialmente pela mensagem, uma coisa mais afirmativa do que o 13 de maio.

ABr: Como o senhor explica que o resgate histórico de Zumbi e do quilombo dos Palmares tenha começado justamente num estado de maioria branca, como o Rio Grande do Sul, com forte presença de imigrantes de origem européia?

Oliveira: Parece até algo meio milagroso que o segmento negro tenha resistido nos estados do Sul. Antes, a Região Sul era considerada essa parte que vai do Rio Grande do Sul a São Paulo. E foi onde a imigração se localizou preponderantemente. Então, houve uma política voltada para essa região. Foi a política do branqueamento, que trouxe imigrantes e deixou de lado e de fora o indígena e o negro, a partir do século 17. Essa política poderia ter eliminado o segmento negro, mas ele resistiu. Eu considero que os imigrantes vieram como convidados e também interessados. Tiveram depois grande participação, grandes oportunidades e apoio logístico, inclusive de seus países. De modo que eles se desenvolveram muito aqui. Eles não podem ser isentados de culpa ou qualquer coisa nesse gênero, porque, na verdade, são beneficiários da nossa exclusão, da tentativa de exclusão de negros e indígenas.

ABr: Como o senhor avalia a atuação do movimento negro hoje e a inserção do negro na sociedade brasileira?

Oliveira: Foi um processo. O movimento foi se desenvolvendo. Vieram novas fases. Tivemos aquela primeira fase, de 1971 a 1978, que eu chamo de virada histórica. Depois, uma fase de surgimento de organizações e de aproximação com o poder, com o governo e a participação na [Assembléia] Constituinte de 1988. A partir da nova Constituição, temos uma nova fase, na qual o movimento tem uma linha mais prática. Já temos experimentações muito importantes, com participação no governo. Temos a Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial [Sepir] e a Fundação Palmares. São instâncias que nos permitem uma experiência muito válida. Então, o movimento avança. E, com a política de cotas nas universidades, estamos dando passos importantes e necessários.

ABr: O Brasil se intitula como a maior democracia racial do mundo. Como o senhor analisa isso?

Oliveira: A democracia racial é um mito trabalhado especialmente em função dessa política de branqueamento, que nunca foi revogada. A miscigenação é apresentada como uma coisa positiva, mas, na verdade, não é. No Brasil, existe preconceito, discriminação na prática, existe racismo. É um país reconhecidamente racista. Isso é oficialmente reconhecido. Eu acredito que o racismo não é uma coisa que desapareça, que possa ser eliminado. Ele pode se aquietar, mas lá pelas tantas está vivo, forte e atuante.

Autor: André Raboni - 20/11/08 às 7:49

10 de novembro de 2007

20 DE NOVEMBRO É SUGESTÃO GAÚCHA

Em 2006, o Governo Federal lançou o Selo Comemorativo aos 35 anos do Dia da Consciência Negra.

por Sátira Machado, do NÓS SOMOS MÍDIA

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O cabelo, na imagem, traz o nome de várias
personalidades negras, no
Selo Comemorativo aos 35 anos do
Dia da Consciência Negra - (2006)


Em 1971, Ano Internacional para Ações de Combate ao Racismo e a Discriminação Racial /ONU, a imprensa gaúcha abre espaço para a divulgação da primeira evocação no Brasil do dia 20 de novembro , uma manifestação do Movimento Negro gaúcho, em alusão ao dia da morte do lider do Quilombo dos Palmares, Zumbi.

O ato do Grupo Palmares, de Porto Alegre, em 1971, foi celebrado por negros e negras no Clube Náutico Marcílio Dias. A criação do grupo e a escolha da data, estudada e sugerida por Oliveira Silveira, foi fruto de encontros de negros na Rua da Praia (Rua dos Andradas), na capital gaúcha.

A partir de 1978, outros Estados passsaram a celebrar o Dia Nacional da Consciência Negra, no dia 20 de novembro. Em 2003, a data passou a fazer parte do calendário escolar com a implementação da Lei 10.639/03, que inclui o ensino sobre a "História e Cultura Afro-Brasileira" nas escolas públicas e particulares do Brasil e dá outras providências.

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Hélio Santos e Oliveira Silveira

O Prof. Hélio Santos destaca que o Movimento Negro é o movimento social mais antigo do Brasil. O Quilombo dos Palmares foi um dos maiores movimentos sociais na história do País. Na Serra da Barriga, em Alagoas, o quilombo foi espaço de resistência e conscientização onde a comunidade negra podia preservar as raízes africanas e pensar em alternativas para o povo negro no novo continente. No ano de 1670, a República dos Palmares já abrigava mais de 50 mil africanos refugiados do escravismo colonial que mais tempo durou no mundo, até 1888.

O Quilombo dos Palmares foi fundado em 1600, por africanos fugidos das fazendas de engenhos de açúcar de Pernambuco. Em 1655, num dos mocambos de Palmares, nasce Zumbi. O quilombo é invadido várias vezes e, numa dessas os soldados capturam Zumbi. O entregam aos cuidados do Padre Antônio Melo, que lhe ensina a ler muitos livros, inclusive em latim. Em 1670, Zumbi foge do padre e retorna para Palmares. Líder, passa a lutar pelo ideal de liberdade de todos os escravizados, não apenas os habitantes do Quilombo dos Palmares. Em 20 de novembro de 1695 é preso e degolado. A abolição da escravidão no Brasil só saiu em 1888.(www.vidaslusofonas.pt)

Em 1986, o local foi tombado. A Serra da Barriga fica a 80 Km de Maceió, no município de União dos Palmares e é considerado o principal sítio arqueológico do país. O arqueólogo da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Zanettini, o professor americano Charles Orser, da Universidade de Ilinois e o professor da Unicamp Pedro Paulo Funari foram os primeiros pesquisadores na serra. Hoje, o arqueólogo estadunidense Dr. Scott Allen, radicado no Brasil há cerca de uma década, é quem responde pelo sítio arqueológico da Serra da Barriga, junto com o Núcleo de Estudos e Pesquisas Arqueológicas da UFAL (Nepa).

9 de novembro de 2007

ORIGENS DO VINTE DE NOVEMBRO

por Oliveira silveira, professor e integrante do Conselho Nacional de Promoção a Igualdade Racial (2004-2007)

Foram necessários 35 anos! E evidente há um relativismo nessa afirmação e... exclamação. são 35 anos do que se pode chamar de período contemporâneo da resistencia e das lutas negras no Brasil, quando já denominadas Movimento Negro - período contado a partir de 1971. Esse foi um ano demarcador através da primeira celebração nacional do Vinte de Novembro.

Novos tempos se iniciam desdobrando-se em três fases: 1971-78 - a virada histórica; 1978-88 -organização, ações políticas,, protestos, posicionamento estratégico...; e de 1988 rm diante - as conquistas mais concretas e palpáveis: presença na Constituição, espaços públicos desde Fundação Cultural Palmares à Seppir, reparações via ações afirmativas (cotas, reserva de vagas, programas e áreas como saúde e educação, bolsas de estudos como as do instituto Rio Branco),territorialidade negra, etc.

Foram necessários 35 anos de ação continuada para chegar a algum retorno significativo - muito significativo, aliás - ou para encaminhar outros, dando sequência ao trabalho resistente de gerações e gerações negras ao longo de cinco séculos. mas desde 35 anos com o Vinte de Novembro, fiquemos apenas com as origens.

Daquele treze a este vinte

A evocação do dia vinte de novembro como data negra foi lançada nacionalmente em 1971 pelo grupo Palmares, de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. O grupinho de negros se reunia costumeiramente em alguns fins de tarde na Rua da Praia (oficialmente dos Andradas) quase esquina com Marechal Floriano, em frente a casa Masson. Eram vários esses pontos de encontros, havendo às vezes algum deslocamento por alguma razão. Pontos negros.

Na roda, tendência à unanimidade.O Treze de maio não satisfazia,não havia por que comemorá-lo. A abolição só havia abolido no papel, a lei não determinara medidas concretas, práticas, palpáveis a favor do negro. E sem o Treze era preciso buscar outras datas, era preciso retomar a história do Brasil. Nas conversas , a república, o Reino, o Estado, o Quilombo dos Palmares (Angola Janga) foi o que logo despontou na vista d'olhos sobre os fatos históricos.

As fontes que levaram ao 20 de novembro de 1695 foram o fascículo Zumbi da série Grandes Personagens da nossa história, editora Abril Cultural, 1969, o livro O Quilombo dos Palmares, de Edson Carneiro (São Paulo: Editora Brasiliense, 1947 e, corroborando, a obra As guerras nos Palmares, do português Ernesto Ennes, ditado na coleção Brasiliana (São Paulo: companhia Editora Nacional, 1938).

Foram quatro participantes da primeira reunião, iniciadores da agremiação ainda sem nome: Antonio Carlos Cortes, Ilmo da Silva, Oliveira Silveira e Vilmar Nunes. Um quinto de nome Luiz Paulo, assistiu mas não quis fazer parte do trabalho. A idéia era um grupo cultural com espaços para estudos e artes, notadamente literatura e teatro. Afinal estavam bem presentes e atuantes os exemplos do Teatro Experimental do Negro, o TEN, e da militância de Abdias do Nascimento, exemplo do poéta Solano Trindade e do Teatro Popular Brasileiro. Era preciso conhecer mais a história, debater as questões raciais, sociais. Vinham do exteriorinstigações como socialismo versus capitalismo, negritude, independências africanas e movimentos negros estadunidenses. A reunião foi por volta de 20/07/1971 (e adotou-se esta como data inicial do grupo).

Já na próxima ou em alguma das reuniões seguintes, ingressou Nara Helena Medeiros Soares (falecida) e dois ou três meses adiante Anita Leocádia Prestes Abdad, ambas consideradas também fundadoras.

O local da primeira reunião foi a casa situada no número 303 da rua Tomás Flores, bairro Bom Fim. Era uma casa de professores: José Maria Vianna Rodrigues (falecido no ano anterior), Maria aracy dos Santos Rodrigues, Julieta Maria Rodrigues, Oliveira Silveira, a menina Naiara Rodrigues Silveira, futura docente, e a senhora Jovelina Godoy Santana, sem esse título mas guardiã de lições de vida (longa). Ali haviam sido corroborados os estudos do Vinte de Novembro, e de Palmares, com a leitura do livro de Ernesto Ennes, num esquecido e mal folhado exemplar cedido ainda em vida pelo professor josé Maria. Lembrado e retomado em momento oportuno, o volume passou a ser devidamente conhecido como valioso.

A segunda reunião e algumas das seguintes, foram em casa de Antônio Carlos Cortes e seus familiars, no prédio da Loteria estadual sito à Rua da Praia quase esquina com a José Manoel. Foi onde e quando o trabalho nascente recebeu o nome de Grupo Palmares.

A denominação Grupo Palmares nasceu do conjunto de participantes da segunda reunião devido as considerações de que Palmares parecia ser a passagem mais marcante da história do negro no Brasilao representar quase um século de luta e liberdade conquistada e sendo também um contraponto à "liberdade" doada no dia 13 de maio de 1888, etc. Outras propostas de nome praticamente não tiveram espaço.

Ao expor brevemente essas considerações já compartilhadas desde as reuniões informais do ponto da Rua da Praia, o componente que vinha estudando Palmares e tentando uma vista d'olhos sobre a história (Oliveira Silveira) - estudos impulsionados por aqueles encontros e diálogos - sugeriu a adoção e evocação do dia 20 de novembro, morte heróica de Zumbi e final de Palmares, justificando:

*não se sabia dia e mês em que começaram as fugas para os Palmares (lá por 1595);

*não havia data do nascimento de Zumbi ou outras do tipo marco inicial;

*Tiaradentes também era homenageado na data de morte, 21 de abril;

*A homenagem a Palmares em 20 de novembro foi incluida no grupo na programação elaborada para aquele ano e foi pocedida por duas outras - a Luiz Gama em setembro e a José do Patrocínio em outubro.

Primeiro vinte

A homenagem a Palmares ocorreu no dia 20 de novembro de 1971, um sábado à noite, no Clube Náutico Marcílio Dias, sociedade negra sita à avenida Praia de Belas nº 2300, bairro Menino Deus, em Porto Alegre. O Marcílio, fundado em 4/7/1949, foi um importante espaço físico, social e cultural perdido nos anos 80. público reduzido, conforme o esperado, mas considerado satisfatório.

"Zumbi, a homenagem dos negros do teatro" foi título da Folha da Tarde para a nota publicada no dia 17. E nessa época de ditadura, em que os militares eram chamados de gorilas, o teatro era muito visado. O grupo foi chamado à sede da Polícia Federal para, através de um de seus integrantes, apresentar a programação do ato e obter liberação da censura no dia 18.

A homenagem a Palmares em 20 de novembro de 1971 foi o primeiro ato evocativo dessa data que, sete anos mais tarde, passaria a ser referida como dia nacional da consciência negra.

Virada histórica e construção

A partir de meados de 1972 a formação do grupo contava com Antonia Mariza Carolino, Helena Vitória dos Santos Machado e Marli Carolino, além de Anita e Oliveira. Um dos principais locais de reunião passou a ser o bar da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a UFRGS, que na época era URGS. Anita Leocádia Prestes Abad, que em 1973 já não estava mais no grupo. Helena Vitória dos Santos Machado e, a partir de 1976, Marisa Souza da Silva foram integrantes cuja participação contribuiu decisivamente para o ajuste do trabalho ao contexto das lutas sociais.

Uma cronologia pode demonstrar o esforço continuado, marcando o Vinte de Novembro,ano a ano até a sua total implantação no país.

1971 - Primeiro ato evocativo do Vinte de Novembro, a homenagem a Palmares em 20/11 no clube Náutico Marcílio Dias.

1972 – Sete páginas dedicadas a Palmares na revista ZH o jornal Zero Hora em 19/11. Histórico de Palmares, depoimento do grupo, redigido por Helena Vitória dos Santos Machado, poema de Solano Trindade com ilustração de Trindade Leal, um conto, capa e ilustração da artista plástica negra Magliani (Maria Lídia), além da ilustração de Batsow, imagens aproveitadas do fascículo Zumbi da Editora Abril e fotos. Material organizado e redigido pelo componente Oliveira e Editado por Juarez Fonseca, do Zero Hora.

1973 – de 6 a 20/11, exposição “três pintores negros” (Magliani J. Altair Paulo Chimendes), palestra de Décio Freitas e o espetáculo “Do carnaval ao quilombo” ( música e texto.

Local: Teatro de Câmara. Em treze de maio fora publicada no jornal do Brasil uma entrevista concedida pelo grupo Palmares. Segundo informações, uma síntese de matéria apareceu no jornal francês Lê Monde. Nesse e noutros anos, televisão e rádio ajudaram na difusão da proposta.

1974 – Divulgação de manifesto através do jornal do Brasil, em matéria assinada por Alexandre Garcia (repórter também na entrevista de 13/5/73). No texto, breve histórico de Palmares “e outros movimentos negros”e indicação de bibliografia. Maria Beatriz Nascimento (2002, p.48), atenta registrou.

1975 - Encontro do grupo Palmares e grupo Afro-Sul, de música e dança, no Clube de Cultura, associação judaica. A seguir em 10 e 16 de dezembro, foram realizadas em parceria com o clube duas palestras e Décio Freitas.

1976 – Lançamento do livreto “Mini-história do negro brasileiro”, na sociedade negra Nós os Democratas. Da tentativa de reformulação surgiu posteriormente “História do negro brasileiro:uma síntese”, um outro livreto editado pela prefeitura de Porto alegre, através da SMEC, em 1986, assinado por Anita Abade outros. Nesse ano em novembro, semanas do negro em Campinas-SP com o grupo Teatro Evolução e em São Paulo com o Cecan e o Cebac. No Rio de Janeiro, conferir ações do IPCN, por exemplo, entidade nova já atenta ao Vinte de Novembro.

Meses antes em 1976, o grupo Palmares recebeu a visita de Orlando Fernandes, vice presidente do IPCN, e Carlos Alberto Medeiros, vice-presidente de relações públicas. O vinte ganhava adesões.

1977 – Ato de Associação Satélite-Prontidão, sociedade negra, com exposição da minibiblioteca do Grupo Palmares e a presença do escritor negro paulista Oswaldo de Camargo, convidado especial. O grupo Nosso Teatro, depois Grupo Cultural Razão Negra, fez apresentação demonstrativa (não a caráter) de sua montagem para a dramatização de “Esperando o embaixador“, conto de Oswaldo.

Além de assinalar o Vinte de Novembro, o Grupo Palmares realizou outra atividades como visita, estudo e divulgação da Congada de Osório-RS em 1973, aproximação com sociedades negras (clubes) mural na sociedade 508 Nós os Democratas, interação e intercâmbio com outros grupos ou entidades... Motivado pelo exemplo de Porto Alegre foi criado em 4/8/1974 em Rosário do Sul – RS, o grupo Unionista Palmares – data de registro para a fundação ocorrida em 21/7. A partir de 20/11/2001º nome mudou para Grupo Palmares de Rosário do Sul.

A primeira fase do Grupo Palmares de Porto Alegre, encerrou em 3 de agosto de 1978. Viriam outras duas, mais adiante. Mas o Vinte de Novembro já estava implantado no país, já estava estabelecida a virada histórica e construído ao longo de sete anos um novo referencial para o povo negro e sua luta. Para o indivíduo negro, o homem ou mulher, sua auto-estima, sua identidade. Criança ou adulto. Novo referencial para o Brasil,com atenções até no exterior, verificadas mais tarde.

E o Vinte de Novembro logo receberia a adesão importante do MNUCDR com a denominação Dia Nacional da Consciência Negra. Receberia , na figura do rei e herói o Festival Comunitário Negro Zumbi (Feconezu), para cidades do Estado de São Paulo. E estava, através da imagem de Zumbi ou explicitamente, como data negra, no Grupo Tição (1977-1980), de Porto Alegre, em sua revista nº 1, de março de 1978; na seção afro-latina-América do jornal ou revista Versus em outubro de 1978, São Paulo; na literatura negra, em “Cadernos Negros” nº 1, São Paulo, o primeiro de uma grande série e com versos de Cuti, Eduardo de Oliveira e Jamu Minka falando em Zumbi, em Ele Semong e José Carlos Limeira juntos em “O arco-íris negro”, no Rio em 1978, ou em Abelardo Rodrigues de “Memória da noite”, no mesmo ano em São Paulo. O Vinte de Novembro e seu espírito já estavam muito bem incorporados à vida e à luta.

O espírito do Vinte

O historiador negro mineiro Marcos Antônio Cardoso (2002, p.47, 48, 66, 67) faz justiça ao Grupo Palmares e sua iniciativa de marcar o Vinte de Novembro, destacando a atuação do grupo no conjunto de ações do movimento negro ,objeto de sua preciosa disertação.

O grupo Palmares primou sempre por um detalhe: ser formado exclusivamente por negros. Com isso, a iniciativa, as idéias e a prática do Vinte se constituem em criação inequivocadamente negra, emergindo da própria comunidade negra e seguindo caminhos próprios, com suas próprias forças e fragilidades . A nominata consagra a importância do individual na composição de um grupo.

Grupo Palmares – Porto Alegre,Rio Grande do Sul, Brasil
Fases:1971ª 1978; GT Palmares do MNU e autônoma novamente, ambas na ´cada de 80. A partir de 1988 ou 1989 dilui-se em ramificações.

Iniciadores – Antonio Carlos Cortes,Ilmo da silva, Oliveira Silveira, Vilmar Nunes, Anita Leocádia Prestes Abad e Nara Helena Medeiros Soares.

Em novas formações – Antônia Mariza Carolino, Gilberto Alves Ramos, Helena Vitória dos Santos Machado, Margarida Maria Martimiano, Marisa Souza da Silva e Marli Carolino.

Registre-se ainda a passagem, pelo grupo, de Irene Santos, Leni Souza, Luiz Augusto, Luiz Carlos Ribeiro, Maria Conceição Lopes Fontoura, Otalício Rodrigues dos Santos, Rui Rodrigues Moraes e Vera Daisy Barcelos. Na segunda fase (GT Palmares MNU), Cees Santos. Na terceira (Autônoma, pós MNU ), Hilton Machado. Estiveram ligados de alguma formaao trabalho Luiz Mário Tavares da Rosa e Maria da Graça Lopes Fontoura , além de um grupo de estudantes de ensino médio, entre os quais Eliane Silva (Nany) e Aírton Duarte. O grupo Palmares contou, paralelamente, com o apoio de um cpirculo de colaboradores e simpatizantes negros. Aliados, em outro segmentos étnico-raciais, emprestaram também seu apoio, ocasionalmente.

O Grupo Palmares sempre valorizou e destacou Zumbi como herói nacional que é, mas preferiusempre centrar a evocação no coletivo: 20 de novembro - Palmares, o momento maior (slogan em cartaz e convite em 1973). Ou então: a homenagem a Palmares em 20 de novembro, dia da morte heróica de Zumbi. Afinal o Estado Negro foi uma criação coletiva da negrada.

O espírito do Vinte é negro, popular e se aninha junto à família negra: homem negro, mulher negra, criança negra. Continuidade étnico-racial com identidade
cultural negra e poder político. Conjugadamente. Uma fórmula, três pricípios. No espírito do Vinte. Ou raça, cultura, poder - em três palavras.

Surgindo numa época em que eram internacionais as influências - da negritude antilhano-africana, das independências na África, do socialismo europeu e dos movimentos negros estadunidenses - o Vinte de Novembro, com todo seu potencial aglutinador, era e continua sendo motivação bem nacional. Afro-brasileira. Negra. Natural, portanto, que em seus 35 anos esteja contemplado numa agenda nacional montada sob liderança da ministra Matilde Ribeiro e coordenada pela Seppir, essa grande experiência, inédita e fecunda. Modelar, inspirando adoção de organismos similares em outros países com peculiariade local e criatividade própria de cada um deles. Mais: conduzindo internamente um processo importante, necessário e, por vocação, irreversível.Sinal de que a luta valeu e vale a pena. Sinal de que negros e negras, com adesão de aliados e aliadas construímos e vivemos simtempos novos e promissores no Brasil.

Referências bibliográficas

CARDOSO, Marcos Antônio. O movimento negro em Belo Horizonte : 1978 - 1998. Belo Horizonte: Mazza
Ed; 2002. 240 p.

SILVEIRA, Oliveira. Vinte de Novembro: história e conteúdo, , in SILVA, Ptronilha Beatriz Gonçalves e;

SILVERIO, Valter Roberto (Orgs) . Educação e Ações Afirmativas: Brasília-DF: Mec/Inep, 2003. 270 p.

8 de novembro de 2007

Oliveira Silveira contra a metáfora chapa-branca

Ronald Augusto (*)
Porto Alegre (RS) · 17/10/2007

Oliveira Silveira, poeta, nasceu em Rosário do Sul (RS) no ano de 1941. Publicou, entre outros, Germinou, Porto Alegre, 1968; Banzo, Saudade Negra, Porto Alegre, 1970; Pêlo Escuro, Porto Alegre, 1977; Roteiro dos Tantãs, Porto Alegre, 1981; Anotações à Margem, Porto Alegre, 1994. Todos livros de poesia. Seus poemas também já foram traduzidos, entre outras línguas, para o inglês e o alemão, e essas traduções apareceram respectivamente na revista Callaloo, The Johns Hopkins University Press (1995), e na antologia Schwarze Poesie, Edition Diá, 1988.

De 1995 para cá, mais exatamente com a publicação do ensaio “Transnegressão” (in Presença negra no Rio Grande do Sul, org. Fernando Seffner, UE, Cadernos Porto & Vírgula, págs. 47-55), momento em que comecei a escrever de maneira mais crítica a respeito de poesia e coisas afins, o percurso textual de Oliveira Silveira tem sido objeto do meu interesse e da minha fruição. Cabe lembrar (e disso me orgulho) que mantemos um diálogo fraterno já há mais de 25 anos.

Sobre sua poesia, entre outras coisas, posso adiantar ao leitor que Oliveira Silveira despreza a complexidade do “literário” convencido e convencional em benefício de outra espécie de complexidade, a saber, ele credita suas forças numa secura antes espartana do que cabralina.

Oliveira é capaz de uma contensão e de uma elegância que só me permito associá-las à sempiterna e serpentina vanguarda da velha-guarda de todos os sambas. A metalinguagem do samba - que se dá a ver na mais ligeira recordação de alguns exemplos do seu cancioneiro -, desmente a concepção de que o uso da metalinguagem é uma prerrogativa viciosa e restrita à erudição de cunho burguês.

Assim, como acontece na arte dos grandes sambistas, a nota metalinguística comparece na obra de Oliveira Silveira, mas de maneira não exibicionista. Oliveira, então, fala de poesia no poema, mas como se reconhecesse um discreto fardo contido nesta sorte de felicidade “arte-feita”.

A gestalt severa e exata da poesia de Oliveira, sua brevidade grave e algo epigramática - considerada se quisermos a partir da perspectiva que reconhece uma vertente negra na literatura brasileira -, é emblema de ceticismo tanto em relação à ética do homem branco, quanto ao viés estético referendado pelo meio literário, representação especular, mas com suas particularidades, dos conflitos étnicos e sociais presentes sob o arco ideológico.

Oliveira nunca perde de vista, no trato com a matéria verbal, que o que aí está em causa é a visão da poesia como arte, isto é, ele constrói o poema desde um ponto de vista estético. A poesia é uma coesão fundo-forma. A idéia ou o conteúdo são visados pelo poeta como dados estéticos e construtivos agenciados e relacionados a outros dados estéticos que compõem a estrutura do poema. Sua poesia, portanto, não cabe dentro dos limites reducionistas de uma “arte participante” ou engajada.

A poesia de Oliveira Silveira se nutre de uma salutar desconfiança a propósito do poder de comunicação da metáfora. Silveira parece dar-se conta de que a naturalização da metáfora, sua precedência, por assim dizer, sobre outros elementos da função poética da linguagem, encobre um barateamento expressivo mesclado a uma afetação kitsch que está a serviço da mundanização da figura do poeta e de sua inserção filisteísta nos quadros de um sistema literário cada vez mais chapa-branca. Felizmente, imbricada em sua poesia elegante há a dose essencial de antipoesia.

Os poemas de Oliveira Silveira continuam, portanto, críticos e, a cada dia que passa, menos alambicados. Um desaforo calmo aos medianeiros da metaforização indecorosa. Os versos de sua linguagem produzem uma estranha delicadeza que vela maliciosamente o cacto “áspero, intratável e forte”.

Oliveira, o homem que inventou o 20 de Novembro. Tradutor de Aimè Cèsaire e Langston Hughes. Poeta que se atreveu a exercitar, hoje, o que nos restou do eco épico (Souzalopes dixit) sem cair em erro: refiro-me à obra Poema sobre Palmares de 1987, onde Oliveira tematiza e recria a experiência histórica e hoje canonizada do mais importante quilombo das Américas.

Silveira, um dos poucos poetas que se banhou na líquida algaravia das línguas africanas. E mesmo não se dedicando por inteiro a uma franca experimentação poética, Oliveira, em alguns dos seus livros, tem contribuído com inteligentes exemplos de poemas que se fragmentam até a unidade mínima da palavra, isto é, a letra.

Em tais poemas, suspensa na página branca, a letra quase deixa de ser letra ao “contornar” ou esboçar, digamos assim, desenhos metonímicos de atabaques, gaiola, banjo: em suma, todo um arranjo não-convencional, concorrendo para subverter a linearidade discursiva. Não tenho receio de afirmar que estes poemas ampliam consideravelmente as possibilidades de leitura da obra de Oliveira Silveira.

E, finalmente, numa época em que a prática da autopromoção faculta a muito poeta de segunda categoria um lugar de destaque no florilégio medíocre das letras “locais” (Porto Alegre), o silêncio vil e incivil em torno do nome de Oliveira Silveira - sem esquecer que para isso contribui a sua orgulhosa e solitária modéstia - pode ser interpretado como um sinal de distinção. Em resumo: quem não leu ainda a poesia de Oliveira, seja por imperícia, seja por má-fé, que não atrapalhe.


(*) Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992) Confissões Aplicadas (2004) e No assoalho duro (2007). É co-editor, ao lado de Ronaldo Machado, da Editora Éblis www.editoraeblis.blogspot.com. Traduções de seus poemas apareceram em Callaloo African Brazilian Literature: a special issue, vol. 18, n0 4, Baltimore: The Johns Hopkins University Press (1995), Dichtungsring - Zeitschrift für Literatur, Bonn (de 1992 a 2006, colaborações em diversos números, poesia verbal e não-verbal) www.dichtungsring-ev.de. Artigos e/ou ensaios sobre poesia publicados em revistas do Brasil e sites de literatura: Babel (SC/SP), Porto & Vírgula (RS), Morcego Cego (SC), Suplemento Cultural do Jornal A Tarde (BA), Caderno Cultura do Diário Catarinense (SC), Suplemento Cultura do jornal Zero Hora (RS); Revista Dimensão nº 28/29, tradução de poema de e. e. cummings (MG); Revista ATO (MG); Revista RODA - Arte e Cultura do Atlântico Negro (MG); www.cronopios.com.br; www.overmundo.com.br; www.revista.criterio.nom.br; www.germinaliteratura.com.br; www.slope.org; entre outros. Despacha nos blogs: www.poesiacoisanenhuma.blogspot.com e www.poesia-pau.zip.net. Ministra oficinas e cursos de poesia e é integrante do grupo os poETs: www.ospoets.com.br

www.overmundo.com.br

7 de novembro de 2007

Metapoemas: literatura negra nos textos de Luiz Silva – Cuti, Edmilson Pereira e Oliveira Silveira

por Simone de Jesus Santos

Em face da polêmica em torno do assunto ou simplesmente da denominação Literatura Negra, o trabalho tem como objetivo discutir, a partir dos textos literários metalingüísticos qual (is) possível (is) leitura (s) podemos realizar dos modos como os escritores afro - brasileiros entendem a sua própria produção, já que a sua escrita é tida pela crítica literária e cultural como diferenciada. Enriquecer os debates sobre a produção literária afro-brasileira possibilita um fortalecimento da mesma pelo fato de colocarmos no centro da discussão uma escrita que embora invisibilizada, institui uma outra tradição que visa a uma positiva representação do afro- descendente. Foram investigados os textos dos escritores afro-brasileiros Luiz Silva-Cuti, Edmilson Pereira e Oliveira Silveira. Foi possível concluir que apesar das particularidades presentes nos textos de cada escritor, a Literatura Negra pode ser lida, nos textos dos três escritores, como um instrumento de transformação da visão estereotipada do afro-descendente. Em relação às distinções entre os escritores, observa-- se que Cuti discute muito a dificuldade de publicação da Literatura Negra, enquanto Edmilson dá um destaque à cultura popular dos afro-brasileiros e Oliveira Silveira traz uma constante de releitura de fatos históricos como elemento de constituição identitária.

Pós Letras - Pesquisas do Programa de Pós Graduação em Letras e Lingüística da Universidade Federal da Bahia
http://posletrasufba.blogspot.com/2007/10/metapoemas-literatura-negra-nos-textos.html

8 de janeiro de 2007

OLIVEIRA SILVEIRA por Oliveira Ferreira da Silveira

OLIVEIRA SILVEIRA (Oliveira Ferreira da Silveira) – Poeta negro brasileiro, nascido em 1941 na área rural de Rosário do Sul, Estado do Rio Grande do Sul. Filho de Felisberto Martins Silveira, branco brasileiro de pais uruguaios, e de Anair Ferreira da Silveira, negra brasileira de cor preta, de pai e mãe negros gaúchos.

Graduado em Letras – Português e Francês com as respectivas Literaturas – pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS. Docente de português e literatura no ensino médio. Atividades jornalísticas. Ativista do Movimento Negro.

Um dos criadores do Grupo Palmares, de Porto Alegre. Estudou a data e sugeriu a evocação do 20 de Novembro, lançada e implantada no Brasil pelo Grupo Palmares a contar de 1971, tornando-se Dia Nacional da Consciência Negra em 1978, denominação proposta pelo Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial, MNUCDR.

Como escritor, publicou até 2005 dez títulos individuais de poesia – Pêlo escuro, Roteiro dos tantãs, Poema sobre Palmares, entre outros – e participou de antologias e coletâneas no país e no exterior: Cadernos negros, do grupo Quilombhoje, e A razão da chama, de Oswaldo de Camargo, em São Paulo-SP; Quilombo de Palavras, organização de Jônatas Conceição e Lindinalva Barbosa, em Salvador, na Bahia; Schwarze poesie/Poesia negra e Schwarze prosa/Prosa negra, organizadas por Moema Parente Augel e editadas na Alemanha por Édition diá em 1988 e 1993, com tradução de Johannes Augel; ou revista Callaloo volume 18, número 4, 1995, e volume 20, número 1 (estudo de Steven F. White), 1997, Virgínia, Estados Unidos.

Na imprensa, publicou artigos, reportagens, e alguns contos e crônicas. Participou com artigos ou ensaios em obras coletivas, caso do ensaio Vinte de novembro: história e conteúdo, no livro Educação e Ações Afirmativas, organizado por Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva e Válter Roberto Silvério – Brasília: Ministério da Educação/Inep, 2002.

Entre algumas distinções recebidas: menção honrosa da União Brasileira de Escritores, do Rio de Janeiro, pelo livro Banzo Saudade Negra em 1969; medalha cidade de Porto Alegre, concedida pelo Executivo Municipal em 1988; medalha Mérito Cruz e Sousa, da Comissão Estadual para Celebração do Centenário de Morte de Cruz e Sousa – Florianópolis-SC, 1998; Troféu Zumbi, obra de Américo Souza, concedido pela Associação Satélite-Prontidão, da comunidade negra de Porto Alegre, 1999; Comenda Resistência Civil Escrava Anastácia, da Rua do Perdão, evento cultural negro, Porto Alegre, 1999; e Tesouro Vivo Afro-brasileiro, homenagem do II Congresso Brasileiro de Pesquisadores Negros, realizado entre 25 e 29 de agosto de 2002 na Universidade Federal de São Carlos, UFSCAR, em São Carlos-SP – ato em 27 de agosto.

Atuação em outros grupos a contar de meados da década 1970: Razão Negra, Tição, Semba Arte Negra, Associação Negra de Cultura. Integrante da Comissão Gaúcha de Folclore. Conselheiro da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República – SEPPIR/PR, integrando, nesse órgão com status de ministério, o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial – CNPIR, órgão consultivo, período 2004-2006.

Alguns exercícios em texto teatral paradidático (cenas, montagens simples) e música popularesca. Poemas musicados por Haroldo Masi, Wado Barcellos, Aírton Pimentel, Luiz Wagner, Marco de Farias, Paulinho Romeu, Flávio Oliveira, Vera Lopes-NinaFóla, Lessandro e, na Suécia, pela compositora Tebogo Monnakgotla.

23 de dezembro de 2006

OLIVEIRA SILVEIRA NO PORTAL AFRO (www.portalafro.com.br)

O poeta Oliveira Silveira mora em Porto Alegre...

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"Porto Alegre sempre teve negros. Antigamente residiam apenas negros no Bairro Colônia, por exemplo. Depois, após a Segunda Guerra Mundial, os terrenos foram adquiridos pelos judeus e os negros afastados para a periferia. Rio Branco e Bonfim também são redutos negros históricos da capital gaúcha."

...mas nasceu em Rosário do Sul, município situado na fronteira oeste do estado do Rio Grande do Sul, em 1941. Foi criado na zona rural, na Serra do Caverá, região famosa graças a revolução de 1923, palco das atividades do revolucionário Honório Lemes. Formado em Letras, Oliveira Silveira é pesquisador e historiador, além de ter o mérito de ser um dos idealizadores da transformação do 20 de novembro em data máxima da comunidade negra brasileira.

Nesta entrevista o escritor desmitifica a imagem do gaúcho, que como tipo social é unicamente apresentado como branco. Na realidade, segundo Silveira, o gaúcho é também negro, pela própria história do estado, que já contava com escravos desde sua formação:

"Havia escravos nos campos e na lida rural, onde até hoje a presença negra é marcante. Para tanto, basta visitar as estâncias do interior e constatar a presença de negros trabalhando como peões."

Portal: Fale-nos sobre seus livros...

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MÃE-PRETA

Filho de branca babujou teu seio,
negrinho berrou e berrou,
sinhá nenhuma amamentou.
Por que não existe mãe-branca?
Por que não existe mãe-branca?

- Mãe branca?
ora já se viu
é muito desaforo!

Oliveira Silveira
Roteiro dos Tantãs

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Oliveira Silveira - Tenho dez títulos publicados, a maioria em antologias como "Cadernos Negros", "Axé", de Paulo Colina, "Razão da Chama" e o "Negro Escrito", ambos de Osvaldo de Camargo. Também tenho textos publicados no exterior. Na Alemanha, numa coletânea com outros autores negros brasileiros, editada no final de 1988. Nos Estados Unidos, em revistas das universidades de Virgínia e da Califórnia, juntamente com Paulo Colina, Osvaldo Camargo e outros.

Portal – Sua terra natal influenciou sua carreira? Como?

Oliveira Silveira – Sim. Isto se deu através da escola. No início estudava em casa, pois minha professora também morava no sítio. Mais tarde me transferi para Rosário e fiz o ginasial, adiante mudei para Porto Alegre, onde cursei o clássico e a faculdade.

"A literatura surgiu em minha vida na época em que ainda morava em Rosário. Minha infância foi marcada pela poesia popular, quadrinhas e versos de polca entoados durante os bailes campeiros. Ritmos típicos do meio rural gaúcho. É um momento especial, onde as mulheres tiram os homens para dançar e aí se cantam versos, o par diz uma quadrinha um para o outro, começando pelo rapaz e respondida pela moça. Também me lembro dos "causos" contados pelos mais velhos na cozinha, ao redor do fogareiro. Essas narrativas são um substrato da minha literatura."

Mais adiante tive contato com livros e comecei a escrever. Em 1958 publiquei meu primeiro poema, num jornal de Rosário. Isto foi muito importante para o início de minha carreira. A partir dos estímulos recebidos de amigos continuei a escrever poemas regionalistas, que marcam até hoje meu estilo. Não me desvinculei desta linguagem rural. Claro que depois experimentei outras tendências, até chegar na poesia negra, na medida em que me conscientizava. Esta consciência chegou bem tarde.

ENCONTREI MINHAS ORIGENS

Encontrei minhas origens
em velhos arquivos
....... livros
encontrei
em malditos objetos
troncos e grilhetas
encontrei minhas origens
no leste
no mar em imundos tumbeiros
encontrei
em doces palavras
...... cantos
em furiosos tambores
....... ritos
encontrei minhas origens
na cor de minha pele
nos lanhos de minha alma
em mim
em minha gente escura
em meus heróis altivos
encontrei
encontrei-as enfim
me encontrei

Oliveira Silveira
Roteiro dos Tantãs



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Portal – Era possível desenvolver uma consciência racial no interior de um estado como o Rio Grande do Sul?

Oliveira Silveira – Na escola éramos e ainda somos muito mal informados sobre esses assuntos, ainda mais no campo. Mesmo em Rosário não cheguei a tomar consciência de minha condição de negro. Isto aconteceu apenas em Porto Alegre, quando entrei na faculdade. Por aí pode-se ver a força da discriminação e do racismo em nosso país. De certa forma foi a literatura que me iniciou nesse caminho. Através da leitura fui as poucos tomando contato com textos importantes como Orfeu Negro e a antologia organizada por Senghor, entre outros. Eles foram o estopim de meu despertar. A leitura deste material e meu envolvimento na política estudantil ampliaram meus horizontes.

Portal – Era difícil, portanto, construir uma identidade racial?

Oliveira Silveira - O grande problema para a tomada de consciência era que não haviam movimentos ou grupos atuantes. Da escola não se esperava muita coisa. Havia alguma informação sobre escravos e quase nada a respeito de quilombos e movimentos de resistência. No meu caso foi mais difícil pois vim para Porto Alegre como estudante e morava em república, sem nenhum contato com a comunidade negra daqui. Foi estudando a história do negro no Sul que descobri que há muito existiam grupos culturais, teatrais, políticos e outros, que movimentavam-se sem o conhecimento da maioria da sociedade.

Portal - Como o negro chegou no Rio Grande do Sul?

Oliveira Silveira - O Rio Grande de São Pedro do Sul, como se chamava antigamente, começou a ser oficialmente colonizado em 1737. Antes disso, desde o século anterior, o negro já circulava neste território. Os comerciantes portugueses de Laguna, em Santa Catarina, passavam por aqui a caminho de Sacramento, no Uruguai. Desnecessário salientar que os braços dessas comitivas eram de negros escravos. Portanto, desde o século 17 esse chão já conhecia os pés da raça negra. Quando em 1725 uma frota chegou ao Rio Grande, atravessando as águas de São José do Norte, o negro já era uma presença constante.

Portal – E como era a escravidão aqui? Dizem que era mais branda...

Oliveira Silveira – A escravidão nestas terras foi muita violenta. Principalmente durante o ciclo das charqueadas, em Pelotas. Segundo Nicolau Brás, um viajante da época que relatava suas andanças, administrar as charqueadas era como administrar um estabelecimento penitenciário. Aqui também ocorreu a reação do escravo contra o sistema. Consta até a existência de quilombos. O mais comum, porém, era a fuga de negros para o Uruguai, que desde 1727 já era independente. Os uruguaios acolhiam os negros em fuga, claro que por interesse, e estes recebiam um tratamento considerado melhor. Os escravos, portanto, preferiam atravessar a fronteira em busca de um território mais seguro. Existem importantes registros de historiadores como Moacir Flores e Solimar Oliveira Lima, com seu livro "Triste Pampa", além do excepcional trabalho de Cláudio Moreira Bento, que conta a história da presença do negro no Sul do século 17 até 1975! Nestas obras percebemos claramente que a escravidão era violenta. Talvez nas estâncias, pelo tipo de atividade desenvolvida e pelo fato das relações entre donos e escravos ser diferente, fosse "menos" violenta, até pela própria natureza. O fato é que "escravidão é escravidão", e não é boa em nenhum lugar, muito menos aqui. Esta história de escravidão branda é balela.

Portal – Então até aqui no Rio Grande do Sul existiram quilombos?

Oliveira Silveira - Existiram quilombos aqui sim! Pesquisadores como Eusébio Assunção, Solimar Oliveira Lima e Guilhermino César, apontam estes núcleos de resistência nas cercanias de Pelotas, Santana do Livramento e Rio Pardo, entre outras localidades. Infelizmente hoje não temos muitos registros de remanescentes. Existem algumas comunidades estabelecidas ao longo da história que estão sendo mapeadas. Este trabalho já foi executado no norte do estado, resta a parte sul, a mais importante. É uma pesquisa fundamental, pois a partir daí poderemos dar início a processos de reparação e de cobrança da dívida social.

Portal – E estas comunidades, preservaram suas características culturais, como a religião, por exemplo?

Oliveira Silveira – Certamente. Dizem os estudiosos que temos peculiaridades nos cultos africanos daqui que não são encontradas em outras partes do país. Temos duas grandes vertentes: uma definida como Angola Conguense e outra Yorubá ou Gegê Nagô, influenciada pela Nigéria e em menor escala pelo Benin. A presença destas religiões é ostensiva em todo o estado. Porém, acredito que esteja ameaçada. Há uma invasão de pessoas de fora da comunidade que ingressam nesses cultos com interesses puramente comerciais. Ao apropriarem-se do conhecimento, descaracterizam-no e iniciam "negócios" nos países do cone sul. Escrevi um artigo onde alertava a comunidade da necessidade de se criar uma resistência cultural a esses invasores. Os negros cultores destas religiões, que ainda mantém a autenticidade em suas atitudes e moradia, devem ser protegidos desta ameaça.

Treze de Maio

Treze de maio traição,
liberdade sem asas
e fome sem pão


Liberdade de asas quebradas
como
........ este verso.

Liberdade asa sem corpo:
sufoca no ar,
se afoga no mar.

Treze de maio – já dia 14
o Y da encruzilhada:
seguir
banzar
voltar?

Treze de maio – já dia 14
a resposta gritante:
pedir
servir
calar.

Os brancos não fizeram mais
que meia obrigação

O que fomos de adubo
o que fomos de sola
o que fomos de burros cargueiros
o que fomos de resto
o que fomos de pasto
senzala porão e chiqueiro

nem com pergaminho
nem pena de ninho
nem cofre de couro
nem com lei de ouro.

O que fomos de seiva
.......................de base
..................... de Atlas
o que fomos de vida
........................e luz
chama negra em treva branca
.......................quem sabe só com isto:

que o que temos nós lutamos
para sobreviver
e também somos esta pátria
em nós ela está plantada
nela crispamos raízes
de enxerto mas sentimos
e mutuamente arraigamos
....quem sabe só com isto:

que ela é nossa também, sem favor,
e sem pedir respiramos seu ar
....a largos narizes livres
bebemos à vontade de suas fontes
... a grossas beiçadas fartas
tapamos-destapamos horizontes
....com a persiana graúda das pálpebras
escutamos seu baita coração
....com nosso ouvido musical
e com nossa mão gigante
batucamos no seu mapa
....quem sabe nem com isso

e então vamos rasgar
a máscara do treze
para arrancar a dívida real
com nossas próprias mãos.

Oliveira Silveira
Banzo - Saudade Negra


MOVIMENTO NEGRO

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Primeiro ato evocativo de 20 de novembro realizado em 1971 pelo Grupo Palmares, em Porto Alegre

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"Há pessoas que imaginam que o Grupo Palmares tenha chegado ao 20 de Novembro através da obra de Décio Freitas, historiador branco que escreveu "Palmares, A Guerra dos Escravos", livro que teve o mérito de pesquisar mais a fundo a vida de Zumbi. O fato é que quando decidimos pela data, não conhecíamos nem Décio Freitas nem sua obra, ele a havia editado no Uruguai, durante o exílio, em agosto de 1971. A decisão de nosso grupo, portanto, é anterior a publicação de seu livro."


Portal – A instituição do 20 de Novembro como "Dia Nacional da Consciência Negra" partiu de vocês, negros gaúchos. Como surgiu essa idéia?

Oliveira Silveira – O 20 de novembro começou a ser delineado em encontros informais na Rua dos Andradas, aqui em Porto Alegre. Estávamos em 1971. Reuníamo-nos e falávamos muito a respeito do 13 de maio, do fato desta data não ter um significado maior para a comunidade. A partir desta constatação comecei a procurar outras datas que fossem mais significativas para o movimento. Comecei a estudar a fundo a história do negro e constatei que a passagem mais marcante era o Quilombo dos Palmares. Como não haviam datas do início do quilombo, tampouco do nascimento de seus líderes, optei pelo 20 de novembro. Colhi esta informação numa publicação da Editora Abril dedicada a Zumbi, que dava esta data como a de seu assassinato, em 1665. Por ser uma revista, não se apresentava como fonte segura. Resolvi pesquisar um pouco mais, como forma de garantia. mais adiante, no livro "Quilombo dos Palmares", de Edson Carneiro, a data se repetia. Considerei esta fonte segura, pela importância do autor. Além disto, tive acesso a um livro português que transcrevia cartas da época, numa delas era relatada a morte de zumbi, em 20 de novembro de 1665. A partir de então colocamos em ação nossas propostas. Batizamos o grupo de Palmares e registramos seu estatuto, em julho. No dia 20 de novembro do mesmo ano (1971), evocamos pela primeira vez o "Dia Nacional da Consciência Negra", na sede do Clube Marcílio Dias.

Portal – O racismo no sul é mais forte? Ouvi comentários, por exemplo, que negros não entravam no Centro de Tradições Gaúchas. É verdade?

Oliveira Silveira – Este é um caso emblemático. O Centro de Tradições Gaúchas foi criado na década de 40. O modelo era o da estância tradicional do Rio Grande. Uma fazenda de criação de gado, com patrão, capataz e peões. Foi um sucesso, e por iniciativa de tradicionalistas brancos, espalharam-se por todo país. Com o tempo caracterizaram-se como sociedades recreativas, com pretensões culturais. A verdade é que quando os negros aproximavam-se dos Centros eram rechaçados. Foram realmente excluídos.

Por reação, surgiram Centros exclusivos de negros! Isto mesmo, Centros de Tradições Gaúchas criados e frequentados por negros! O mais antigo deles é o "Lanceiros de Canabarro", que fica na cidade de Alegrete.

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A figura ilustra um "Lanceiro Negro", na Revolução Farroupilha (1835 - 1845) no Rio Grande do Sul

"O racismo está presente no Sul, bem como no resto do país, e seus efeitos são similares. Talvez aqui seja mais evidente, afinal a quantidade de negros é bem inferior a de descendentes de europeus. O fato é que o racismo no Rio Grande do Sul tem as mesmas características históricas de todo Brasil."

CULTURA E RESISTÊNCIA

Cantar Charqueada
Até eu cantei charqueada
chorando a sorte do boi.

Mas descobri que meu canto
tem raízes noutro campo:
por trás das cancelas mudas,
por trás das facas agudas.

Meu canto é uma carne escura
charqueada a relho na nalga;
é figura seminua
junto às gamelas de salga.

Carne escura exposta ao vento
dos varais do saladeiro
exposta viva ao sol quente
e suas facas carneadeiras.

Carne que se compra e vende
e de bem longe se importa
se salga, seca e só perde
quando já é carne morta

E meu canto é dessa carne
que não é minha e me dói
sangrando no sol da tarde
de um tempo que enfim se foi

Cabe a mim cantar charqueada
chorando a sorte do boi?

Oliveira Silveira
Pêlo Escuro


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Portal – E como o movimento negro gaúcho se mobilizou na política e cultura ao longo da história?

Oliveira Silveira – Podemos começar em 1892 com a fundação do jornal "O Exemplo", dedicado a questões negras, onde um dos destaques eram os artigos de Esperidião Calixto , que mostravam um alto grau de consciência racial. Calixto foi um infatigável militante na virada do século. O jornal existiu até 1930, foram 37 anos! Um marco na imprensa negra brasileira.

Outro foco de resistência é o Clube Floresta, que já conta com 129 anos. O Floresta fez história. Na década de 20 contava com o Centro Cívico José do Patrocínio, que fomentava atividades culturais, incluindo teatro.

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Em Rio Grande, por volta de 1932, ocorreram sessões da Frente Negra Brasileira, um importante movimento surgido em São Paulo no ano anterior.

Consta também a existência da União dos Homens de Cor, comprovada pelos estatutos da entidade encontrados em Osório.

Culturalmente, podemos destacar o Kikumbi no litoral e a congada "Terno de Maçambique" realizada em Osório, tradicional desde o século 19 e atuante até os dias atuais.

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Na Porto Alegre do início do século 20 havia uma grande atividade cultural negra que os cronistas chamavam genericamente de "batuque". É evidente que este termo encobria manifestações distintas como jongo, semba, capoeira e o próprio samba.

As Escolas de Samba são uma decorrência dos Blocos que surgiram inicialmente em Pelotas, berço da primeira escola, a "Academia de Samba Praiana".

É um assunto muito extenso...

Portal – Especificamente, após a criação do Grupo Palmares em 1971, como está o movimento gaúcho?

Oliveira Silveira – Depois de Palmares temos outras experiências. Uma das mais significativas foi a criação da "TIÇÃO", com três edições, duas como revista e uma como jornal, entre 1977 e 1980. A seguir vem a formação do núcleo local do MNU – Movimento Negro Unificado, que a partir de um certo momento, incorporou-se ao Grupo Palmares. A partir de 80 surgiu o "IAIA DUDU", um grupo artístico de dança e teatro, criado pela atriz Vera Lopes e por Maria Conceição Fontoura. Outro grupo importante é o AFROSUL , que atua na área de dança e música, há mais de 20 anos. Destaco também o "MARIA MULHER", criado em 1987, que é um dos mais atuantes, reunindo trabalhos sociais e culturais de mulheres negras.

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Portal – E o Projeto "Cabobu"?

Oliveira Silveira - É um festival cultural em Pelotas, com música, palestras e oficinas alusivas ao "Sopapo", um grande tambor que estabelece um diferencial entre o samba do sul e o carioca. Há registros que afirmam que este instrumento exista desde 1826! O idealizador deste evento é Giba Giba (Gilberto Amaro do Nascimento), que conta com a colaboração de Cacaio, Boto e Bucha, tradicionais percussionistas de Pelotas. A festa costuma atrair personalidades como Naná Vasconcelos, Chico César e grupos musicais de todo o estado.

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"Minha Pelotas Princesinha do Sul, onde negro com branco não faz misturada"
Solano Trindade, que residiu em Pelotas entre 1939 e 1941.

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Portal – Conte-nos um pouco sobre a literatura feita por negros em seu estado.

Oliveira Silveira – Ela inicia-se no século 19 e um fato dos mais significativos foi a fundação da Sociedade "Parthenum Literário", que influenciou a cultura e a vida política no Rio Grande do Sul. Nesta sociedade havia um negro chamado Luís da Motta, que publicou um livro de poemas e peças de teatro publicadas no jornal "O Exemplo", que reunia outras poetas negros como Alfredo de Souza e Aurélio de Bittencourt. No início do século 20 aparecem outros nomes. O mais importante foi Paulino Azurenha, que além de escritor foi um dos fundadores do "Correio do Povo". Atualmente podemos contar com nomes de peso como Paulo Ricardo de Morais, Ronald Augusto, Jorge Fróes e Maria Helena Vargas, uma poetisa ficcionista muito interessante, entre outros. Hoje a literatura negra é uma realidade no Rio Grande do Sul. Os autores estão presentes.

Portal – Incluindo o senhor...

Oliveira Silveira – Oliveira Silveira, a seu dispor...

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Entrevista realizada em janeiro de 2001 na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre. Repórter e fotos: Jader Nicolau Jr. Assessoria: Nina Porto. Edição: Milton César Nicolau

20 de dezembro de 2006

OLIVEIRA SILVEIRA: UMA ENTREVISTA

Oliveira Silveira: Uma entrevista
Charles H. Rowell, Oliveira Silveira
Callaloo, Vol. 18, No. 4, Literatura Afro-Brasileira: Um Numero Especial (Autumn, 1995), pp. 983-984

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Journal Information for Callaloo
Journal information provided by The Johns Hopkins University Press - JSTOR has partnered with Project MUSE® to include links to the full text of recent articles in Callaloo

http://links.jstor.org

OLIVEIRA SILVEIRA – NO ÍNDICE DE AUTORES DO LITERAFRO

www.letras.ufmg.br/literafro

LITERAFRO – Portal da Literatura Afro-brasileira.

Objetivo: divulgar e estimular a pesquisa e a reflexão a respeito da produção literária dos brasileiros afro-descendentes. Lugar rizomático, elo e ponto de encontro. Mas, também, ambiente lacunar, feito de presenças e ausências, que adquire sentido pelo que apresenta e pelo que ainda está por vir e apresentar. Espaço em construção, aberto sempre a visitas e intervenções.

Eduardo de Assis Duarte
Coordenador do Projeto
Eliana Amarante de Mendonça Mendes
Diretora da FALE-UFMG

*********************
Literatura e Afro-descendência
por Eduardo de Assis Duarte

"Não existe, na aparência,
diferença essencial nos trabalhos
dos brasileiros brancos e de cor.
Mas justamente não passa de aparência,
que dissimula no fundo contrastes reais."

Roger Bastide

A conformação teórica da literatura “afro-brasileira” ou “afro-descendente” passa necessariamente pelo abalo da noção de uma identidade nacional una e coesa. E, também, pela descrença na infalibilidade dos critérios de consagração crítica presentes nos manuais que nos guiam pela história das letras aqui produzidas. Da mesma forma como constatamos não viver no país da harmonia e da cordialidade construídas sob o manto da pátria amada mãe gentil, percebemos, ao percorrer os caminhos de nossa historiografia literária, a existência de vazios e omissões que apontam para a recusa de muitas vozes, hoje esquecidas ou desqualificadas, quase todas oriundas das margens do tecido social.

Desde o período colonial, o trabalho dos afro-brasileiros se faz presente em praticamente todos os campos da atividade artística, mas nem sempre obtendo o reconhecimento devido. No caso da literatura, essa produção sofre, ao longo do tempo, impedimentos vários à sua divulgação, a começar pela própria materialização em livro. Quando não ficou inédita ou se perdeu nas prateleiras dos arquivos, circulou muitas vezes de forma restrita, em pequenas edições ou suportes alternativos. Em outros casos, existe o apagamento deliberado dos vínculos autorais e, mesmo, textuais, com a etnicidade africana ou com os modos e condições de existência dos afro-brasileiros, em função do processo de miscigenação branqueadora que perpassa a trajetória desta população.

Além disso, argumenta-se enfaticamente que critérios étnicos ou identitários não devem se sobrepor ao critério da nacionalidade: “nossa literatura é uma só” e, afinal, “somos todos brasileiros”... E mais: seríamos todos “um pouco” afro-descendentes... Muitos de nós teríamos, sim, “um pé na cozinha”, para lembrar a frase do presidente Fernando Henrique Cardoso. Daí, não haver sentido em demarcar especificidades de raça, etnia ou mesmo gênero, seguindo quase sempre “modismos importados” com o objetivo de fraturar o corpo de nossa tradição literária e da herança outorgada pelos mestres do passado e do presente.

O resultado de tais condicionamentos traduz-se na quase completa ausência de uma história ou mesmo de um corpus estabelecido e consolidado para a literatura afro-brasileira, tanto no passado quanto no presente, em virtude do número ainda insuficiente de estudos e pesquisas a respeito, apesar do crescente esforço nesta direção. A inexistência de uma recepção crítica volumosa e atualizada, bem como de debates regulares nos fóruns específicos da área de Letras, decorre desses fatores e também da ausência da disciplina “Literatura Afro-brasileira” (ou “Literatura Brasileira Afro-descendente”) nos currículos de graduação e pós-graduação da maioria dos cursos de Letras instalados no Brasil. Como conseqüência, mantém-se intacta a cortina de silêncio que leva ao desconhecimento público e vitima a maior parte dos escritores em questão.

E, como recorda Maria Nazareth Fonseca (2000), mesmo publicações que procuram tornar mais conhecida a produção literária dos afro-brasileiros, como, por exemplo, os Cadernos Negros, de São Paulo, que já possuem uma tradição e têm uma periodicidade comprovada, ficam fora do mercado editorial. Além disso, antologias, folhetos e jornais ligados ao Movimento Negro realizam um louvável esforço de divulgação, mas possuem uma circulação restrita, ao mesmo tempo em que se voltam preferencialmente para autoras e autores contemporâneos. Com isto, permanece intacto o processo de obliteração que deixa no limbo de nossa história literária a prosa e a poesia de inúmeros autores afro-brasileiros do passado.

Apesar desse conjunto de fatores desfavoráveis, há de se ressaltar que a historiografia literária brasileira vem passando, nas últimas décadas, por um vigoroso processo de revisão não apenas do corpus que constitui seu objeto de trabalho, como dos próprios métodos, processos e pressupostos teórico-críticos empregados na construção do edifício das letras nacionais. Tal revisão não ocorre, obviamente, de forma espontânea, mas motivada pela emergência de novos sujeitos sociais, que reivindicam a incorporação de territórios discursivos antes relegados ao silêncio ou, quando muito, às bordas do cânone cultural hegemônico.

No decorrer dos anos 80, a postura revisionista ensaia seus primeiros passos na academia pelas mãos do feminismo, bem como a partir das demandas oriundas do movimento negro e da fundação no Brasil de grupos como o Quilombhoje. Nesse contexto, destacam-se os trabalhos de Moema Parente Augel, Zilá Bernd, Domício Proença Filho, OLIVEIRA SILVEIRA, Oswaldo de Camargo, Luiza Lobo, Leda Martins e de membros do movimento negro, que, ao lado de brasilianistas contemporâneos, como David Brookshaw, dedicam-se ao resgate da escrita dos afro-descendentes.

Destaque-se ainda a precedência de trabalhos como os de Sílvio Romero, Arthur Ramos, Gilberto Freyre, Henrique L. Alves ou Edison Carneiro. A eles se juntam Roger Bastide, Raymond Sayers e Gregory Rabassa que, embora partindo de perspectivas e métodos distintos, debruçaram-se, ao longo do século XX, sobre esta produção. E, já naquele instante, aflorava o caráter polêmico inerente à colocação de mais um qualificativo às nossas letras: além de brasileira, essa literatura começava a postular-se ou ser designada como negra ou afro-brasileira. Desnecessário repetir que tal postura ainda hoje é motivo de resistências em diversos setores do campo intelectual. Domício Proença Filho (1988: 77-80) alerta para o “risco terminológico” implícito ao uso da expressão literatura negra, qual seja, o de “fazer o jogo do preconceito” ao atribuir a esses escritos um lugar “sutilmente distinto, sob a capa de aparente valorização.”

Reação semelhante perpassou também o território da chamada “escrita feminina”, conceito que ainda hoje suscita questionamentos, mesmo entre a crítica feminista e os movimentos de mulheres. A essa altura, pode-se adiantar que tal controvérsia decorre da tensão entre a pretendida igualdade de espaços ou oportunidades e o necessário respeito à diferença. Até mesmo o slogan “viva a diferença, com direitos iguais”, lançado a certa altura pelas feministas, aponta em seu viés algo utópico, para essa tensão, que marca o desenvolvimento das “políticas de identidade” (HALL, 1999). Ao reivindicar o respeito à diferença, tais políticas se expõem ao risco de alimentar a discriminação, conforme também postula em suas conclusões Antônio Flávio Pierucci (1999), a partir de pesquisa realizada entre o eleitorado conservador na cidade de São Paulo.

No campo das artes e da literatura em especial, é corriqueiro o argumento pelo qual elas não têm sexo, nem cor. O conservadorismo estético propugna a existência de uma arte sem adjetivos, portadora de uma essência do belo concebida universalmente. Sob esse prisma, vigoram os preceitos da arte pura, elevada e jamais contaminada pelas contingências ou pulsões da história. Uma arte cuja finalidade é não ter um fim para além de si mesma, como bem a define o idealismo kantiano. Todavia, no alvorecer do novo milênio, é o caso de se indagar a quem serve esse essencialismo. Não estará ele comprometido com o absolutismo de um pensamento que por séculos impôs outras essências tidas também como sublimes e absolutas, com a finalidade básica de perpetuar hierarquias e naturalizar a exclusão?

A nosso ver, a ideologia do purismo estético, ela sim, faz o jogo do preconceito, à medida que transforma em tabu as representações vinculadas às especificidades de gênero ou etnia e as exclui sumariamente da “verdadeira arte”, porque “maculadas” pela contingência histórica. Este purismo é, no fundo, um discurso repressor, que cala a voz dissonante desqualificando-a enquanto objeto artístico. É o caso de se indagar qual valor concede sustentação a valores estéticos enrijecidos por séculos de colonização ocidental. E não será difícil vislumbrar nesse quadro o mesmo etnocentrismo que um dia levou Hegel a excluir a África da humanidade.

Do outro lado do espectro crítico, ao contrário, vigora o olhar descentrado, que se fundamenta não apenas na pluralidade e na relatividade dos valores estéticos, aliás, como já defendiam as vanguardas históricas do século XX, mas vislumbra o cultural e o político também como valores da arte. Nesta perspectiva, a distinção de uma determinada literatura como integrante do segmento afro-descendente ganha pertinência ao apontar para um território cultural tradicionalmente posto à margem do reconhecimento crítico, e ao denunciar o caráter etnocêntrico de muitos dos valores adotados pela academia. Ao postular a adjetivação dos operadores oriundos da Teoria Estética, a crítica fundada no respeito à diversidade cultural indica explicitamente o locus delimitado e específico a partir do qual foram gerados e, mais tarde, impostos, conceitos pretensamente universais – qual seja, o lugar da cultura branca, masculina, ocidental e cristã, de onde provêm os fundamentos que ainda hoje sustentam o cânone e, mesmo, concepções estreitas de literatura, arte e civilização.

A afro-descendência, uma questão

No caso específico de nossa produção letrada, outras barreiras nada desprezíveis colocam-se frente à tarefa de tornar mais visível o corpus da afro-brasilidade. Tais empecilhos vão desde a estigmatização dos elementos oriundos da memória cultural africana e o apagamento deliberado da história dos vencidos até ao modo explicitamente construído e não essencialista com que se apresentam as identidades culturais.

Ao lado disso, acrescente-se nossa constituição híbrida de povo miscigenado, onde linhas e fronteiras de cor perdem muitas vezes qualquer eficácia. As relações inter-raciais e interétnicas constituem fenômeno concernente à própria formação do Brasil enquanto país. Ao longo de nossa história, o fenômeno da mistura de raças e culturas recebeu distintos tratamentos, indo da idealização romântica de uma terra sem conflitos ao mito da democracia racial, por um lado; e da condenação racialista típica do século XIX ao fundamentalismo de muitos segmentos contemporâneos, que rejeitam a mestiçagem e defendem a existência de uma possível essência racial negra, por outro.

Condenada por Nina Rodrigues, Paulo Prado e demais vozes atreladas ao pensamento positivista e darwinista, entre outros, ao mesmo tempo em que celebrada por Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro e tantos mais, a mestiçagem é, no entanto, um dado inexorável de nossa constituição enquanto povo. Somos um país marcado pela hibridez e este é um fato absolutamente explícito em nosso cotidiano e óbvio em sua magnitude até mesmo biológica, comprovada recentemente através da extensa pesquisa do DNA do brasileiro levada a cabo por cientistas do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG.1

Todavia, a concepção de um paraíso híbrido localizado ao sul do Equador dissimula em grande medida o rebaixamento dos afro-descendentes. Como sabemos, a discriminação pela cor da pele e pela presença de traços fenotípicos africanos dá-se de forma mais ou menos sutil, dependendo da situação. A doxa da democracia racial constrói para o Brasil a imagem de um país mestiço – nem preto, nem branco, muito antes pelo contrário –, fruto da mistura harmoniosa das raças que se juntaram para a formação do nosso povo (SCHWARCZ, 1993, 1998). E se a mestiçagem transforma-se em marca da identidade nacional, essa construção traz implícita consigo a acomodação diluidora que orienta em grande medida a leitura das relações interétnicas no Brasil, sem que haja um enfrentamento dos conflitos que esculpem a face invisível do mito que nos quer explicar (FONSECA, 2000).

A título de ilustração, recorro ao depoimento de duas intelectuais contemporâneas afro-descendentes, dados num intervalo de poucos meses, a um mesmo periódico cultural. Refiro-me às entrevistas de Marilene Felinto e Suely Carneiro à revista Caros Amigos. Indagada a respeito de seu posicionamento no campo identitário, afirmou a autora de As mulheres de Tejucopapo:

Até porque nem me acho muito nordestina mais, me acho tão misturada, não me acho nada. Nem nordestina, nem negra, nem branca, não sou nada, nada exatamente. Não levanto nenhuma bandeira, não milito no movimento negro, não militaria, não choramingo pelo Nordeste, muito pelo contrário. (Felinto: 2001).

É preciso destacar, inicialmente, que a recusa explícita à militância deixa claro o nexo entre ser e agir, ou seja, entre vinculação identitária e compromisso existencial e político. Enquanto configuração discursiva, somos aquilo que dizemos ser, somos as idéias que defendemos. Marilene Felinto explicita o leque de identificações em trânsito (HALL, 1999) como alternativa que refuta o enraizamento e a afro-descendência. Por outro lado, constata-se a reedição, em seu discurso, de uma postura que possui datação histórica e que termina por deflagrar a aceitação tácita das normas raciais impostas socialmente, tal como ocorreu com inúmeros outros afro-brasileiros ilustres do passado. Essa opção implica a recusa a qualquer pertencimento, especialmente se isto significar pertencer a um segmento majoritariamente discriminado.

Já Sueli Carneiro, dirigente do GELEDÉS – Instituto da Mulher Negra –, indagada a respeito do conceito, assim se posicionou:

A expressão afro-descendente resgata toda essa descendência negra que se dilui nas miscigenações, desde a primeira miscigenação que foi o estupro colonial, até as subseqüentes, produto da ideologia da democracia racial. A expressão resgata a negritude de todo esse contingente de pessoas que buscam se afastar de sua identidade negra, mas que têm o negro profundamente inscrito no corpo e na cultura. (Carneiro: 2000).

A fala explicitamente política articula etnicidade, cultura e condição social. Sem obliterar a questão da cor, apela à re-construção da memória ancestral para com ela alimentar o orgulho étnico e o próprio estatuto identitário afro-brasileiro. As duas citações deixam patente que a atitude assumida pelo sujeito dessa construção não se dá de forma natural ou automática, mas a partir de um processo de identificação a determinadas marcas culturais, escolhidas como origem no âmbito de uma ancestralidade eleita como opção.2 Posição semelhante pode-se depreender das colocações de Zilá Bernd (1987), que configura a literatura negra como aquela produzida por um sujeito de enunciação que se afirma e se quer negro.

Nesta perspectiva, a assunção da afro-descendência funcionaria como um antídoto ao processo de alienação que afeta indivíduos de “pele negra e máscaras brancas” (FANON, 1983). Tais sujeitos edificam para si a imagem de brancos e se tornam eles próprios agentes do preconceito. A celebração de vínculos, inclusive afetivos, com uma africanidade em parte resgatada e em parte construída a posteriori, no âmbito da diáspora negra no Brasil, confere à produção cultural comprometida com esse processo um caráter de resistência política ao rebaixamento social do qual é vítima esta população. Ao questionar o mito da conciliação dos contrários promovido pela ideologia da democracia racial, tal produção coloca-se no extremo oposto do movimento histórico de diluição miscigenadora aludido por Suely Carneiro.

Vinculado à mestiçagem e aos estigmas provindos da escravidão, o branqueamento, enquanto negação da afro-descendência, tem nos legado escritores que produzem uma literatura esquecida da questão racial e das desigualdades dela decorrentes. Um exemplo instigante talvez seja Mário de Andrade, mulato que, como tantos outros, buscou a ocultação da origem, tanto socialmente, quanto em alguns de seus escritos. Em “Poemas da Negra” (1929), o eu lírico exalta inicialmente “a escureza suave / que vem de você, / que se dissolve em mim”, para em seguida declarar “ôh meu amor, / Nós não somos iguais.” (1976, 222-3) Já em Macunaíma, texto que aparentemente celebra a mestiçagem, a questão se agrava. Há passagens em que o discurso de rebaixamento do negro fala pela voz do narrador, como na famosa cena do branqueamento do herói, em que a água mágica “lavara o pretume” da pele... Na seqüência, o irmão se jogou sofregamente na mesma água, mas esta já estava “muito suja da negrura do herói” e o personagem “só conseguiu ficar da cor do bronze novo”. O narrador afirma que Macunaíma “teve dó” e assim “consolou” o irmão: “-olhe, mano Jiguê, branco você ficou não, porém pretume foi-se e antes fanhoso que sem nariz.” (Andrade: 1978, 34)

O texto fala por si e dispensa maiores interpretações. Mas deixa visível o quanto a idéia de branqueamento implica em denegação do ser e do existir negro num país de racismo camuflado como o Brasil. Apesar das concessões ao discurso racial hegemônico, Mário de Andrade deixou considerável acervo de estudos e pesquisas sobre a oralidade de origem africana presente em nossa cultura popular, além de belas páginas sobre a arte da “mulataria” no século XVIII, em especial, sobre Aleijadinho. Nesses momentos, a afro-descendência assume a forma de retorno do recalcado e passa a dirigir a sensibilidade e o olhar do sujeito mestiço.

Outro caso polêmico é o de Machado de Assis, acusado por muitos de extirpar de suas narrativas o mundo do trabalho, em especial, o do trabalho escravo, bem como de ter se omitido em relação à luta pela emancipação dos negros. De origem humilde, mulato cujos avós paternos conheceram a senzala, o escritor teria ascendido ao panteão da glória acadêmica no mesmo ritmo em que se afastava de sua etnicidade de origem. A questão é controversa e possui várias facetas. Por um lado, a explicitação de um proselitismo abolicionista (ou de qualquer outra natureza) estaria em contradição direta com o projeto literário machadiano, marcado pela ironia e por sofisticados deslizamentos de sentido. Por outro, seria correto afirmar que a condição afro-descendente está ausente de seus escritos?

Por certo que não. Em sua ficção, Machado focaliza preponderantemente as elites, universo de onde provinha certamente o grosso de seu público leitor. Mas, além de não abrigar estereótipos racistas quanto à representação dos afro-brasileiros – prática, aliás, corriqueira em muitos escritores de seu tempo, inclusive abolicionistas como Aluísio Azevedo – em nenhum momento constrói o elogio dos senhores, ao contrário. Um personagem como Brás Cubas, por exemplo, ressalta a todo instante o destronamento crítico que escritor põe em prática. E se verificarmos Bentinho, Palha, os irmãos Pedro e Paulo, ou o Conselheiro Ayres, veremos que nenhum deles escapa à lâmina ferina do escritor.

E há, ainda, o Machado de Assis homem de imprensa, protegido muitas vezes pelo pseudônimo e a escrever para um público mais amplo. Magalhães Júnior (1957) afirma, ter sido o autor acionista da Gazeta de Notícias, um dos jornais mais lidos na década de 1880 e que continha, em todas as edições, matérias contra a escravidão. A leitura das crônicas machadianas revela o cidadão empenhado em denunciar a crueldade do sistema e a hipocrisia de escravocratas recém-convertidos ao abolicionismo. Mais: tais escritos valem-se muitas vezes dos recursos da narrativa de ficção para fazer a sátira dos senhores. Noutros momentos, clamam à filantropia dos brancos em prol do fundo de emancipação, numa demonstração inequívoca de que defendia uma libertação pacífica e sem maiores traumas para o país.

À época do apogeu de Machado, a denúncia do preconceito e do processo de hierarquização inerente ao branqueamento encontra acolhida explícita na ficção de Lima Barreto. O autor repudia o “novo” estatuto dos remanescentes de escravos e demonstra uma compreensão correta do processo histórico ao articular etnicidade e condição sócio-econômica: “negro ou mulato, como queiram”, costumava dizer de si mesmo como forma de recusar o branqueamento. Pobre e suburbano, via a ascensão social bloqueada não apenas pela linha de cor, mas também pela exploração econômica. Como exemplo, pode-se destacar, entre tantas, a cena do desfile militar em Recordações do escrivão Isaías Caminha, na qual o narrador, ele próprio um mestiço, observa a arrogância dos oficiais, em contraste com as figuras trôpegas, entre negras e mulatas, dos desajeitados componentes da tropa: “os oficiais pareciam-me de um país e as praças de outro. Era como se fosse um batalhão de cipaios ou de atiradores senegalezes” (Barreto, 1993: 68).3

A partir destas amostras, tem-se a dimensão da diversidade (e das contradições) que marcam a presença afro em nossa literatura. Ela surge enquanto etnicidade, isto é, fora da órbita da natureza e enquanto assunção de um determinado pertencimento identitário, para além dos condicionantes fenotípicos. Assim, cabe ao estudo deste conjunto heterogêneo de autores verificar tanto a afro-descendência celebrada, assumida ou apenas admitida (às vezes de modo envergonhado), quanto aquela outra, subalternizada e reprimida socialmente, recalcada ou mesmo explicitamente repudiada. A pesquisa não pode se reduzir a simplesmente verificar a cor da pele do escritor, mas deve investigar, em seus textos, as marcas discursivas que indicam (ou não) o estabelecimento de elos com esse contingente de história e cultura.


A constituição da literatura afro-brasileira:
historicidade, identidade, gênero


Em seu livro A poesia afro-brasileira, de 1943, Roger Bastide revisita nossa tradição letrada partindo de uma perspectiva étnica, como o próprio título anuncia, para destacar as obras dos negros e mestiços. Na Introdução do volume, chama a atenção para a especificidade desta poesia, invocando como pressuposto não apenas a diferença cultural, mas também as contingências históricas inerentes à presença dos africanos e seus descendentes no Brasil:

Talvez não seja impunemente que se traz correndo nas veias sangue da África e, com o sangue, pedaços de florestas ou de descampados, a música, longínqua do tam-tam ou do ritmo surdo da marcha das tropas, reminiscências de magias e de danças, gris-gris e amuletos de madeira. Talvez não seja impunemente que se tenha passado pela senzala e dela se tenha saído pelo esforço mais que heróico ou pela bondade do senhor branco, para subir um pouco na escala social. (BASTIDE, 1943: 8).

Embalado por esse cauteloso “talvez”, Bastide reconhece a memória cultural africana, bem como a memória do trauma do aprisionamento e da escravidão como fatores estruturantes de uma expressão que só “na aparência” não é diferente da produzida pelos brancos. Entre o sangue/raça e a memória/cultura dos submetidos, vê a memória do sangue e da submissão como alimento da diferença. Recusa, desta forma, rebaixar os afro-brasileiros à mesma tabula rasa com que os primeiros colonizadores portugueses, sobretudo os jesuítas, reduziram os índios. Em seu ponto de vista, algo resiste nos afro-descendentes que sobrevive à assimilação e os faz escaparem do etnocídio. Tal processo de superação histórica leva-os a aprender a língua dos senhores sem esquecer formas, narrativas e crenças do passado livre. E acrescenta: “deve ficar na alma secreta um halo desta África” (idem). Deste modo, mas sem deixar de fora o movimento pendular entre as forças poderosas da imitação e da originalidade, volta ao século XVIII em busca dos começos da poesia afro- brasileira.

Bastide apóia-se em Sílvio Romero para entronizar o mulato Domingos Caldas Barbosa (1738-1800), autor da Viola de Lereno, como o “primeiro poeta afro-brasileiro”, endossando suas afirmações quanto à circulação das trovas e cantigas de Lereno junto às camadas populares (1943: 22). Passa em seguida ao árcade Silva Alvarenga (1730-1814) para expor seu branqueamento, fruto da educação coimbrã. Afirma predominar a mimese das formas européias, mas não desiste de procurar “sob a melodia das flautas o que subsiste do ritmo africano sufocado” (1943: 25).

Ao estudar o período romântico, destaca Teixeira e Souza (1812-1861), Silva Rabelo (1826-1864), Tobias Barreto (1839-1889) e Gonçalves Dias (1823-1864) como autores mestiços, porém marcados, em diferentes níveis, pela imitação dos padrões europeus. Bastide acusa o branqueamento que, em Teixeira e Souza, leva à exclusão do escravo e à impossibilidade de “um lirismo puramente africano” (1943: 40); em Silva Rabelo, apesar do protesto contra a escravidão, leva ao “embranquecimento da desgraça afro-brasileira” (1943: 46); em Tobias Barreto, à união das raças em favor da pátria; em Gonçalves Dias, leva ao tema africano, mas sob o peso de uma “sensibilidade ariana” (1943: 67); e, posteriormente, também em Gonçalves Crespo, brasileiro residente em Portugal, a assunção dos valores europeus conduz à construção de uma descendência idealizada e até “nostálgica da cor branca” (1943: 86). O crítico conclui o tópico declarando que o romantismo “retardou a eclosão da poesia afro-brasileira.” (1943: 80)

A exceção ficaria de Luiz Gama (1830-1882), filho da célebre Luiza Mahin com um fidalgo português e vendido pelo próprio pai. Embora destacando a primazia da perspectiva autoral, calcada no ponto de vista dos submetidos, Bastide menospreza o lirismo do “Orfeu de Carapinha”, por ter, segundo ele, “fracassado” na busca de uma especificidade poética africana. Mas valoriza a sátira do autor, voltada para a crítica da imitação dos brancos e para a valorização dos traços culturais e fenotípicos oriundos do continente negro.

Já a pesquisa de Gregory Rabassa (1965), na seqüência do estudo de Raymond Sayers (1958), deixa em segundo plano a questão da autoria. Ambos os trabalhos, concebidos originalmente como teses de doutorado para universidades norte-americanas, ocupam-se do negro mais como figura representada do que como sujeito de enunciação. Sayers enfoca a narrativa pré-abolicionista, enquanto Rabassa enfatiza a produção posterior a 1888, indo até meados do século XX.

David Brookshaw (1983), por sua vez, ocupa-se tanto da representação quanto da autoria. Seu estudo estabelece três categorias de escritores: os da tradição erudita, marcada basicamente pelo recalque da condição afro-brasileira; os da tradição popular fundada no humor e na assunção da africanidade; e aqueles vinculados à tradição do protesto e da sátira. No primeiro caso, figurariam como nomes fundantes Machado de Assis (1839-1908), Tobias Barreto (1839-1889) e Cruz e Souza (1861-1898). Quanto ao segundo grupo, Brookshaw retoma Bastide e Romero para colocar Domingos Caldas Barbosa como iniciador de uma tradição que mescla poesia e música popular. E faz o mesmo ao destacar Luiz Gama como fundador da verdadeira poesia afro-brasileira, voltada não apenas para a celebração da cor e dos elementos culturais oriundos de África, mas, sobretudo, para a crítica feroz ao branqueamento e aos valores sociais impostos aos remanescentes de escravos.

Idêntica postura assumem Zilá Bernd (1988; 1992) e Domício Proença Filho (1988: 77-109). Ambos enfatizam Luiz Gama como “discurso fundador” e “pioneiro da atitude compromissada” com os valores da negritude. Segundo Proença Filho, Gama foi o primeiro poeta “a falar em versos do amor por uma negra” (1988: 94). Caracterizando esta literatura como “um modo negro de ver e sentir o mundo, transmitido por um discurso caracterizado, seja no nível da escolha lexical, seja no nível dos símbolos utilizados, pelo desejo de resgatar uma memória negra esquecida”, Zilá Bernd (1992: 13) destaca as Primeiras trovas burlescas de Luiz Gama, publicado em 1859, como “um verdadeiro divisor de águas na Literatura Brasileira, na medida em que funda uma linha de indagação sobre a identidade, a qual será trilhada até hoje pela poesia negra do Brasil.” (1992: 17).

Em seu livro O negro escrito, de 1987, Oswaldo de Camargo, além dos nomes já citados, indica outros precursores. Após referendar Domingos Caldas Barbosa como “o primeiro poeta mulato do Brasil”, indica Evaristo da Veiga (1799-1837) e José da Natividade Saldanha (1795-1830) como mestiços que não assumiram literariamente a afro-descendência. Mais adiante, distingue Francisco de Paula Brito (1809-1861) como “um dos precursores do conto no Brasil”, além de “iniciador do movimento editorial” e “precursor, também, da imprensa negra” (1987: 41-2). No entanto, a “alta consciência da raça” só viria mais tarde, com Luiz Gama.

Como se pode notar, há um consenso entre os críticos citados, no que toca aos momentos fundantes da literatura afro-brasileira. Este percurso passa pelos poetas do século XVIII, chega aos primeiros românticos e deságua na poesia de Luiz Gama, colocado por todos como o Pai desta tradição. Além de ter sofrido a condição escrava, Gama assumiu seus vínculos étnicos e culturais, e vislumbrou sempre na literatura o gesto político necessário à intervenção no status quo.

Mesmo concordando com a inclusão dos autores acima indicados, é impossível não reconhecer o caráter gendrado – isto é, marcado por uma especificidade de gênero –, desta trajetória, que confere a ela uma tonalidade especificamente patriarcal. Com efeito, os estudos aqui resenhados corroboram o sentido geral de nossa história literária, sobretudo em seus começos, qual seja o de uma história basicamente masculina. A título de exemplo, invoque-se José de Alencar, entronizado por Afrânio Coutinho como o “patriarca do romance brasileiro”, fato que emoldura a quase total ausência de escritoras em nossa historiografia literária, nos períodos anteriores ao século XX.

Todavia, o momento presente propicia (e exige) a articulação da etnicidade com o gênero, a partir mesmo de uma compreensão da diferença cultural que os particulariza frente aos padrões hegemônicos, e dos condicionantes históricos que relegaram ambos os segmentos à submissão, apesar de em níveis distintos. Assim, uma vez operada tal articulação, abre-se a possibilidade de um suplemento à configuração teórica e histórica da literatura afro-brasileira. E esta operação suplementar aponta justamente para a inclusão das mulheres que, nos séculos XVIII e XIX, vencendo as barreiras impostas às “pessoas de cor” e ainda aquelas derivadas do pertencimento ao “sexo frágil”, lograram atingir a expressão letrada e até publicar.

Nesse novo contexto, avulta a africana Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz, que chega ao Rio de Janeiro em 1725, aos 6 anos de idade. Segundo seu biógrafo, Luiz Mott (1993), foi colocada no ganho e prostituída na região das Minas Gerais, chegando a ser açoitada no Pelourinho de Mariana. Mais tarde, é considerada portadora de poderes paranormais, muda de vida, volta ao Rio de Janeiro e funda o Recolhimento de Nossa Senhora do Parto, onde passa a acolher ex-prostitutas. Além disso,

foi não apenas a primeira africana no Brasil, de que temos notícia, a conhecer os segredos da leitura, como também provavelmente a primeira escritora negra de toda a história, pois chegou a reunir centenas de páginas manuscritas de um edificante livro: Sagrada Teologia do Amor de Deus, Luz Brilhante das Almas Peregrinas, lastimavelmente queimado às vésperas de sua detenção [pela Inquisição], mas do qual restaram algumas folhas originais. (Mott, 1993: 8).

Na longa biografia, o autor refere-se ainda a outros escritos e à existência de quarenta cartas, plenas de poeticidade barroca, encontradas na Torre do Tombo nos dois volumes do processo aberto pelo Santo Ofício. Quanto ao manuscrito destruído, afirma ter sido finalizado em 1752. Curiosa coincidência: neste mesmo ano, outra desterrada, a brasileira Teresa Margarida da Silva e Orta, publicava com sucesso, em Lisboa, suas Máximas de virtude e formosura ou Aventuras de Diófanes, conforme se tornou conhecido a partir da segunda edição. A inclusão de ambas as autoras na Literatura Brasileira é polêmica. No caso de Teresa Margarida, pelos motivos exaustivamente debatidos. Já sobre Rosa Egipcíaca pesa o fato de não ser brasileira, nem ter, até o momento, seus escritos publicados e divulgados.

A pouca divulgação também impediu que a maranhense Maria Firmina dos Reis (1825-1917) viesse a constar dos manuais clássicos de nossa historiografia literária. A escritora, num fato inédito naquela época para uma mulher humilde, mulata e bastarda, conseguiu, em 1847, ser aprovada em concurso público para a cadeira de Instrução Primária, tendo exercido o magistério ao longo de boa parte dos seus noventa e dois anos de vida. De acordo com Zahidé Lupinacci Muzart (2000: 264), Maria Firmina publica Úrsula, em 1859, sendo este o “primeiro romance abolicionista e um dos primeiros escritos por mulher brasileira”, tendo ainda colaborado em diversos jornais, inclusive com o romance-folhetim Gupeva, de 1861, e o conto “A escrava”, em 1887.

Muzart apóia-se na biografia elaborada por José Nascimento Morais Filho e em outros estudos, como de Luiza Lobo e Maria Lúcia de Barros Mott, para asseverar que “pela primeira vez o escravo negro tem voz e, pela memória, vai trazendo para o leitor uma África outra, um país de liberdade.” E destaca a personagem Mãe Suzana, cuja inserção vai dar o tom de inovação e ousadia de Úrsula frente às demais narrativas abolicionistas:

Mãe Suzana vai contar como era sua vida na África, entre sua gente, de como se deu a prisão pelos caçadores de escravos e de como sobreviveu à terrível viagem nos porões do navio. É mãe Suzana quem vai explicar a Túlio, alforriado pelo Cavaleiro, o sentido da verdadeira liberdade, que essa não seria nunca a de um alforriado num país racista. (MUZART, 2000: 266).

Desta forma, a contribuição de Luiz Mott, Zahydé Muzart e tantos pesquisadores empenhados no resgate de vozes esquecidas da nossa literatura vai, aos poucos, construindo um instigante suplemento a esta história. No caso, um suplemento de gênero, que desconstrói a narrativa eminentemente masculina até então em vigor. Note-se que, no mesmo ano em que Luiz Gama publicava suas Primeiras trovas burlescas, Maria Firmina dos Reis trazia a público Úrsula. Deste modo, se a Literatura Afro-brasileira tinha, em 1859, um de seus marcos fundadores, após a redescoberta de Úrsula, passa a ter dois... o que induz a pensar na existência não apenas de um Pai, mas também de uma Mãe... Tais anotações, ainda distantes e de qualquer conclusão, ressaltam a necessidade de permanentemente se revisitar e desconstruir a narrativa de nossa história literária.


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19 de dezembro de 2006

PALAVRA DE NEGRO

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por Oliveira Silveira, no livro
Negro em Preto e Branco, de Irene Santos

Afora o trabalho braçal dos quatro séculos em que trabalho era sinônimo de negros construindo o Brasil para beneficiários de outras raças, etnias ou procedências nacionais, a imprensa, a literatura, outras artes e formas culturais demonstram eloqüentemente a participação negra na vida brasileira enquanto manifestação de seres pensantes, expressão de sensibilidade e ação por vontade própria.

A partir do século XVI (16 em arábico) o negro criou a liberdade de Palmares - estado, país, reino, república... - adentrando e ocupando nisso toda a centúria seguinte. E nesse mesmo XVII, os anos 1600 no calendário parcial dos cristãos, a oratura negra das letras de lundu, a literatura oral ou oralitura, como diz a afro-mineira Leda Martins, estavam bem presentes, com certeza. Já no setecentismo, o século XVII dos minérios, o maior brilho é do escultor, o artista Antônio Francisco Lisboa, o alejadinho. Na literatura e na música, já aparece o sangue negro em Caldas Barbosa e José Maurício, respectivamente.

No século XIX (19 em arábico), quando nasce verdadeiramente a literatura brasileira, o primeiro romancista é o negro Teixeira e Souza, mulato. E o primeiro editor nacional é um negro, o mulato Francisco de Paula Brito, justamente o precursor, também, da Imprensa Negra. Seu jornal, O Homem de Cor,1833, mudado para O Mulato ou o Homem de Cor. Tudo em lições de mestre Oswaldo de Camargo, escritor negro paulista, em o Negro Escrito , livro de 1988. Paula Brito, editor aina de A Marmota Fluminense, o seu jornalismo em ação. A pesquisa da jornalista negra Ana Fraga Magalhães Pinto para o mestrado em História na Universidade Nacional de Brasília, UNB, localiza novos títulos inclusive em 1833.

O maior escritor da época ou além dela, um polígrafo, senhor dos gêneros liteários e do estilo é o homem negro Machado de Assis. Mulato, negromestiço,negróide, ou misto afro... é tudo negro no Brasil. E tem Luiz Gama, Cruz e Souza - um continuum literário, artístico, cultural, em crescendo, impondo-se aos séculos XX e XXI. Sim, vinte e vinte e um.

Se ainda no século dezenove (XIX) José do Patrocínio era escritor, empresário e jornalista negro dono de jornais - Gazeta da Tarde , 1877-1887, e A cidade do Rio, 1887-1903- ou se o poeta Cruz e Souza tinha escritos abolicionistas ou simplesmente literários em jornais de Florianóplis , em Porto Alegre quem marca forte é o grupo do jornal O Exemplo. Cobrindo com interrupções e fases de o período 1892 a 1930, O Exemplo é iniciativa e organização de negros . Antecipa-se à importante imprensa negra paulista e paulistana: O Baluarte, Campinas,1903, A Pérola, São Paulo, 1911, O Menelick a seguir, O Clarim da Alvorada mais adiante.

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O Exemplo, exemplar, fo seguido por outros órgãos gaúchos como os pelotenses A Cruzada, 1905, e A Alvorada, 1907, ou A Revolta, 1925 em Bagé, A Navalha, 1931 em Santana do Livramento - informes de Marco Antônio Lírio de Melo, revista Porto e Vírgula nº29, novembro de 1996.

Em O Exemplo (mais vinculado ao meio negro nos primeiros tempos), do diretor inicial Arthur de Andrade à derradeira direção de Dario de Bittecourt, o grande destaque é para a visão, a coerência, o espírito crítico e combativo de Esperidião Calisto, um barbeiro jornalista muito politizado. E tem literatura, humor, informes sobre teatros e clubes como o Floresta Aurora.

Se a imprensa negra de São Paulo acelerou com O Menelick, O clarim de Alvorada, A Voz da Raça ( da Frente Negra Brasileira)) e seguiu em frente, e se, no Rio de Janeiro, Abdias do Nascimento e o Teatro Experimental do Negro lançaram o também histórico Quilombo, 1948-1950, com sucedãnios na cena carioca e fluminense (SINBA, Boletim do IPCN, na década de 70), no Rio Grande do Sul houve , parece um hiato a partir de 1930. ou nos faltam registros. Mas a partir dos anos 60 sabe-se de informativos de clubes - sociedade Floresta Aurora, Clube Náutico Marcílio Dias, associação satélite Prontidão... O Ébano é de 1962.

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Marco inequívoco é Tição, de Porto Alegre( grupo Tição, 1977 -1980). Revistas Tição em 1978 e 1979, dois números, e a publicação única do jornal Tição em 1980. Apresentação cuidada , boa diagramação e conteúdo envolvendo história, debate sobre racismo, questões sociais, políticas e culturais em geral, reafirmaram a possibilidade de uma imprensa negra vigorosa, renovada, séria e rica em abordagenstemas e profundidade.

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Referência importantíssima Tição dialoga com a imprensa negra da década: o anterior e clandestino A Árvore das Palavras, Afro-Latino-América (in Versus), Jornegro, todos paulistas, e outras publicaçãoes do Rio já citadas, sobre as quais Amauri Mendes Pereira poderia falar melhor. Asim Tição participa, muito significativamente dessa história jornalística longa e heróica em nosso País.

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Continuum literário nos séculos XX e XXI ccc ( calendário capenga dos cristãos ou calendário capenga cristão para quem prefere as coisas mais ajustadinhas). É que além dos citados Machado de Assis , Luiz Gama e Cruz e Souza o século dos anos 1900 teve o romancista e cronista Lima Barreto, poetas como Líno Guedes e Solano Trindade, seguidos por nomes como os de Oswaldo de Camargo e Carlos de Assumpção que iniciando antes mas juntando-se aos novos, fazem uma ponte para a literatura negra contemporânea. Negra ou de negros.

O vigor dessa fase iniciada nos anos de 1970 é atestado pela obra de escritores como Cuti, Éle Semog, Geni Guimarães, Arnaldo Xavier, Paulo Colina , Adão Ventura, Míriam Alves José Carlos Limeira, jônatas Conceição, Edson Cardoso Conceição Evaristo, Salgado Maranhão, Lepê Corrêa, Elisa Lucinda, Eustáquio Lawa (Eustáquio José Rodrigues), Edimilsom de Almeida Pereira, Ricardo Aleixo, Lande Onawale, Cristiane Sobral... A lista é longa.Os citados representam os omitidos, injustiças à vista. E Cadernos Negros, com o Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa na trincheira representam uma periodicidade anual iniciada em 1978, alternando conto e poesia nas 27 edições completadas em 2004 com a marca do grupo Quilombhoje, em São Paulo.

Machado em seu tempo já escrevia peças teatrais. Em meados do século XX Abdias do Nascimento escreveu e fez montagens com o grupo do TEN. Rosário Fusco, Romeu Crusoé e Ironildes Rodrigues são também autores desse período rico. E Cuti, Joel Rufino dos Santos e outros fazem a dramaturgia contemporânea.

No Rio Grande do Sul, o poeta Luiz da Motta publicou comédia em O Exemplo (coleção 1902-1905). O mesmo jornal registra atividade teatral na sociedade Floresta Aurora desde o final do século XIX, resultando num duradouro Centro Dramático do clube em começos do sécolo XX. e desde o início o semanário ostenta poemas de negros, seções humorísticas delicosas, prosa variada. Semanário de LeoPardo taz em livro de 1926 as crônicas de Paulino de azurenha, escritas em estilo primoroso entre 1905 e 1909 para o Correio do Povo . Mais uma preservação de Aníbal Damasceno Ferreira. Preciosidade. O negro ou o misto afro Azurenha - LeoPardo - estava ao lado de Caldas Júnior na fundação do Correio e continuou como redator do jornal.

Na útima fase, 1916-1930, O Exemplo publica também autores brancos, alguns poetas da época, e seria preciso estudar a freqüência de negros em suas páginas. Para a lacuna entre os anos de 1930 e 1960, é bom lembrar que Antônio Lourenço, redator do jornal nos anos 20, publica sonetos no Correio do Povo ao menos na década de 70 e início dos anos 80, quando falece. Haverá outros autores entre o período Vargas e a ditadura militar de 1964? Pesquisar. A partir de 1965 o Teatro Saci fez bonito vencendo um festival Martins Pena ou montando a peça Um Cravo na Lapela, do dramaturgo branco Pedro Bloch, organizado sob a presidência de Eloy Dias dos Angelos e tendo Horacilda do Nascimento como vice-presidente a atriz Eni Maria de Neves e o ator Airton Marques representam os seus demais colegas nessa citação.

Da mesma época, surgindo em 1964 ou 65 é o GTM, Grupo de Teatro Marciliense, liderado por Luiz Gonzaga Lucena e integrantes do clube náutico Marcílio Dias. Aírton Silva e Geci Lemos exemplificam voz e talento no GTM. Pois o GTM e Grupo de Teatro Novo Floresta Aurora (com os irmãos Mauro Paré e Marilene Paré, entre outros) montaram juntos lá por 1969 o Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes, no theatro São Pedro, tendo Aírton Marques como Orfeu. O ator negro gaúcho Breno Melo desmpenhou esse papel no cinema em orfeu no carnaval, de Marcel Camus, produção franco-brasileira. O filme ganhou Palma de Ouro em 1959 no festival de Cannes. Lá por 1971, ano em que surgiu o Grupo Palmares, de Porto Alegre , lançando a data 20 de novembro, foi possível assistir uma atividade teatral no Floresta em que sobressaiam o talento do ator não burilado e o potencial de Jorge Antônio dos Santos.

O Grupo Cultural Razão Negra inicio como Nosso Teatro em meados dos anos 1970 com a dramatização do conto Esperando o Embaixador, de Oswaldo de Camargo, montando na sequência três peças escritas e dirigidas por um componente do próprio grupo, Jaime da Silva: E Agora Negra? (1979) e O Convite (já em 1980) e uma outra intitulada o It...

A década de 70 já tem na poesia o trabalho de Alsina Alves de Lima, que em 1966 já mostrava um poema sobre a condição feminina em obra coletiva, Nossa Geração, do Diretório Estadual de Estudantes (RS). Talvez não tenha conseguido publicar seu livro Roda d'Água, de modo que, após sua morte, torna-se mais precioso o volume 6 dos Cadernos Literários do Instituto Cultural Português, editado em Porto Alegre em 1982. Ali estão um comentário crítico de Antônio Soares sobre a escritora e uma valiosa coleção de 15 poemas datados:1966 a 1981. Em Meu Poema, de 1971, ela diz:

Sendo pobre e mulher/ e sendo negra
quero meu poema/ como quero a vida
sem cercamentos/ sem desencontros
sem segregação
.

Palavra de negra. E numa em que se apareceriam, dos anos 80 ao final do século, autores como Paulo Ricardo de Moraes, poeta e contista com experimentações no texto dramático e na área de vídeo; Ronald Algusto, poeta inventivo, inquiridor da linguagem, com incursões também na crítica literária, além de compositor e intérprete musical; Maria Helena Vargas da Silveira, com poemas e prosa vária- contos, crônicas e outras utilizações artísticas da palavra; ou Jorge Fróes, inédito em livros mas com poemas e contos esparsamente.

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SANTOS, Irene (Org.). Negro em Preto e Branco: história fotográfica da população negra de Porto Alegre. Porto Alegre: Do Autor, 2005.
Créditos Imagens: Irene Santos

11 de dezembro de 2006

Lembrança e olvido nas literaturas afrobrasileira e guineense ( www.geocities.com)

por Moema Parente Augel, da Universität Bielefeld

Tomando como ponto de partida duas áreas aparentemente bastante diversas, uma amostra da literatura afrobrasileira e uma da literatura guineense, pretendo refletir sobre o papel da memória e suas transformações dentro do fazer literário e seu aporte para a compreensão do passado recente tanto no Brasil como na Guiné-Bissau.

Um tal paralelo interessou-me por vários motivos. O corpus de uma e de outra dessas literaturas é limitado, a datação é recente e estão interligadas por uma série de temas semelhantes, embora muitas vezes o tratamento seja diverso.

Os setores dominantes sempre pretenderam fazer prevalecer a sua interpretação dos fatos passados e assim influenciar a sociedade, obscurecendo outras interpretações. A versão oficial da História vem sendo hoje em dia, entretanto, continuamente posta em questionamento pelos grupos até agora excluídos ou silenciados, tais como as mulheres, as camadas economicamente desprivilegiadas, as minorias étnicas ou sexuais - fenômeno característico do pós-modernismo.

No Brasil, para que o discurso oficial dos detentores do poder, da glorificação nacional, da estabilidade política e do louvor ao esforço em prol do desenvolvimento do país pudesse ser proferido, foi preciso que se silenciassem outras falas, que se fizessem calar outras lembranças, latentes ou vivas na população, e que se procurasse eliminar a memória popular que guarda em seu seio uma outra versão dos mesmos acontecimentos. A recente literatura afrobrasileira resgata a realidade histórica ligada ao processo da escravidão e suas conseqüências, reinterpreta o passado, numa atitude consciente contra o esquecimento de certos fatos e visões que seus autores pretendem recuperar, apresentando novas facetas de acontecimentos históricos conhecidos. O mesmo se dá na Guiné-Bissau, onde os escritores, principalmente os romancistas, quebram com a tradição jogralesca de louvor aos chefes tribais, recusando-se a fazer eco aos encomiásticos discursos oficiais, ousando evocar outras realidades, emprestando a voz aos esquecidos ou conscientemente relegados ao limbo da não referência.

Apesar de todas as diferenças, as duas amostras literárias que constituem a base do presente estudo são analisadas sob um aspecto importante (mas não único), comum a ambas: representam uma literatura de vencidos, lançando mão da reconstituição da memória como base de um discurso denunciador, dirigido contra um discurso oficial e hegemônico diametralmente oposto.

O mito da democracia racial e a estratégia desenvolvida pelo discurso hegemônico brasileiro para defendê-la e divulgá-la são desmascarados de modo decisivo e emocional pelos autores afrobrasileiros. Na Guiné-Bissau, vai importar aos escritores criar, através da sua ficção, e em parte também da poesia, um contradiscurso que desmantele o ufanismo e a mitificação dos heróis da liberdade da pátria, dos quais o passado guineense está impregnado. Os autores aqui mencionados - Abdulai Sila e Filinto de Barros - relativizam, através da literatura, a versão oficial da gloriosa vitória contra as forças imperialistas estrangeiras por parte dos atuais dirigentes do país. Estes se consideram construtores da nação, os herdeiros do espírito da luta, os legatários do partido libertador e os continuadores da obra de Amílcar Cabral, reservando para si mesmos a encarnação e a afirmação da dignidade do povo guineense, a fundação da sua nacionalidade, a preservação da unidade nacional num país que se festeja como multicultural, multi-étnico e mesmo multirracial.

Devido ao fato de a Guiné-Bissau ter sido apenas uma fonte de fornecimento de escravos e de mercadorias para os exploradores portugueses praticamente até grande parte do século XIX, a sua ocupação e colonização sempre foram muito precárias e sente-se até hoje as conseqüências disso. No campo da literatura, por exemplo, só nos últimos vinte anos, isto é, depois da independência (1973), que se pode detectar um certo florescimento, ainda incipiente e modesto. O Brasil tem uma história muito diversa e o fato de ser independente há já cento e setenta e sete anos, em contraste com os vinte e seis anos de emancipação da Guiné-Bissau, dá-lhe uma outra maturidade, por exemplo no campo da literatura, mas não lhe apaga as cicatrizes resultantes da colonização e do escravismo. Embora em épocas diferentes e por meios diferentes, ambos os países libertaram-se do regime colonial português que deixou graves marcas por onde passou. No meu estudo, o que me vai sobretudo interessar serão os caminhos percorridos pelo instrumental literário como um fazer em função de um contra-discurso oposicional e emancipatório.

A Guiné-Bissau e sua prosa ficcional

Na Guiné-Bissau, país de história recente em vias de grandes transformações sociais, a sua incipiente literatura reflete tanto esse jovem passado e os caminhos da emancipação como o estado emocional dos guineenses ante a decepção causada pelo que se considera a traição dos ideais revolucionários por parte dos dirigentes. A produção literária contemporânea faz eco, na sua variedade, aos anseios e às preocupações da elite intelectual urbana, inconformada com a situação política e social do momento presente. Assim, dada a quase inexistência de fontes escritas de informação, travar conhecimento com as obras que aí se estão produzindo desde a independência é uma das melhores maneiras de compreender e apreender este pequeno enclave de língua oficial portuguesa, de cerca de 36.000 km2, no meio da costa ocidental africana.

Com seus três romances (Eterna paixão, A última tragédia e Mistida), Abdulai Sila, que é o fundador da ficção guineense, não se restringe à simples constatação do desastre em que resultou a libertação do jugo colonialista, nem se detém apenas no desfiamento das mazelas que cobrem o povo guineense: vai procurar os responsáveis e os denuncia, direta ou indiretamente. Filinto de Barros, com seu único romance Kikia Matcho, desenvolve, a seu modo, paralelamente à trama romanesca, um amplo esquema de explicação para basear suas críticas e sua análise do momento por que passava seu país. Também ele levanta a voz e denuncia, põe o dedo nas feridas abertas pelos seus próprios correligionários1.

Os recentes acontecimentos na Guiné-Bissau, que culminaram com o desencadeamento da guerra fratricida que por mais de um ano (mais exatamente de 7 de junho de 1998 a 7 de maio de 1999) tumultuou e desarticulou o país, estão contribuindo para que o discurso oficial hegemônico se esvazie e perca a sua aura, reiterando de forma dramática a triste atualidade da urgência de uma reinterpretação da História guineense.

A literatura afrobrasileira

Hoje em dia não é mais possível ignorar a existência da poesia negra, da prosa negra e do teatro negro brasileiros. A literatura afrobrasileira tem a mesma essência, não importa que sua forma seja a poesia, a ficção ou o teatro. Tem como pano de fundo, como leitmotiv a questão ontológica, visceral do ser e do estar-no-mundo como negro numa sociedade que se diz e que se quer branca e como tal se comporta. Há temas que se repetem e sempre de novo aparecem, de forma insistente e catársica muitas vezes. Alguns deles são comuns à literatura guineense e africana em geral, mas outros têm a ver com a condição de diáspora em que vivem os afrodescendentes.

A literatura afrobrasileira é, desde o momento em que se quis e declarou como tal, muito recente, tão recente como a independência da Guiné-Bissau - e suas manifestações literárias. Mesmo tendo havido alguns precursores (lembremos aqui Solano Trindade, Lino Guedes), somente a partir da década de setenta que os escritores negros brasileiros passaram a publicar com regularidade e crescente freqüência2. Falta, entretanto, ainda muito para que seja conhecida e aceita pelo nosso mundo acadêmico e literário, lacuna que certamente não acontece por acaso.

Escritores como Solano Trindade e Lino Guedes, Oswaldo de Camargo, OLIVEIRA SILVEIRA, Cuti, Paulo Colina, Éle Semog, Elisa Lucinda, Miriam Alves, Geni Guimarães ou ainda Muniz Sodré, Joel Rufino, Eustáquio José Rodrigues, Edimilson Pereira, Salgado Maranhão, Lourdes Teodoro, Conceição Evaristo e muitos outros, todos eles declaradamente escritores negros, não podem mais ser silenciados e fazem parte definitivamente do cenário da literatura nacional. A partir da obra de alguns deles, ressaltarei algumas particularidades temáticas que estão mais diretamente ligadas a esta análise.

Na escolha dos textos que servem de base a este estudo, não posso deixar de levar em consideração certos aspectos relativos ao contexto sociocultural aqui ressaltado, transparecendo através da recuperação da memória coletiva, da revisão do passado colonial, da crítica à interpretação hegemônica da história, elementos comuns tanto aos afrodescendentes como aos guineenses. O verso é sempre um dedo em riste, diz Geni Guimarães no seu poema Parto sem dor (1993:36) e a literatura não pode ser tão somente deleite estético.

Lembrança e olvido

Nossas recordações pessoais vão muito além das nossas próprias experiências, envolvendo lembranças antigas e passadas. O passado aflora sempre, penetra nas experiências do hoje, matizando, influenciando nossas percepções.

As reminiscências de cunho pessoal, entretanto, possuem igualmente uma componente social, coletiva, pois "o grupo transmite, retém e reforça as lembranças, mas o recordador, ao trabalhá-las, vai paulatinamente individualizando a memória comunitária" (Chaui, 1987, p. XXX).

A memória coletiva, enraizada nas lembranças individuais, é de importância fundamental tanto para os indivíduos em si como para o grupo do qual fazem parte esses indivíduos, para a sua localização num contexto geográfico e social (seu estar-no-mundo) e também para a sua própria identidade (seu ser-no-mundo).

A memória é o resultado de uma prática humana, uma faculdade mental ou intelectual, devendo por isso ser exercitada, permanentemente dinamizada através de técnicas ou métodos chamados mnemônicos. Existem técnicas mnemônicas coletivas que têm por finalidade manter acesa a chama de lembranças de uma comunidade. Monumentos, estátuas, as paradas cívicas ou procissões religiosas são exemplos da técnica mnemônica coletiva (J. Assmann, 1993, p. 350 e ss.). O motivo e a finalidade dessas técnicas mnemônicas culturais é o asseguramento e a continuidade da identidade social, indispensável para a auto-estima do grupo (ibd.).

O não exercício da memória pode provocar o fenômeno contrário do esquecimento, do olvido, da amnésia e que pode ser tanto individual (fenômeno patológico), como pode ser também coletivo (fenômeno social). É ocasionado, por exemplo, pelo fato de certos acontecimentos ou pessoas, considerados pelo poder hegemônico como prioritários ou de maior importância, serem postos forçadamente em relevo para o reforço da própria imagem, levando ao esquecimento outros fatos ou indivíduos considerados então de menor importância ou mesmo completamente silenciados. Num estado autoritário, uma das formas simbólicas de impor e demonstrar a autoridade do governo pode manifestar-se através de rituais que enfatizam esse poder.

No Brasil, e da mesma forma na Guiné-Bissau, dá-se exatamente o que acabo de descrever: o poder hegemônico seleciona os episódios da história recente que têm que ver com os seus interesses e esquece - e faz esquecer - outros. Por exemplo, o papel dos grupos religiosos tradicionais foi considerado contrário à nova ordem nacional guineense, depois da independência, taxado de primitivo e portanto devendo ser ultrapassado, o que foi feito à custa de violências e crimes. No Brasil, também se podem encontrar exemplos da mesma atitude, como o caso dos núcleos de resistência escrava terem ficado esquecidos, não mencionados (ou só superficialmente) nem mesmo nos livros de História do Brasil.

Contra as verdades impostas, a literatura pode assumir posições capazes de serem analisadas como desconstrutivistas, uma vez que catapulta para a periferia do interesse dramático o que até então era considerado pelos representantes do poder hegemônico como essencial e absoluto, trazendo para o centro da leitura elementos até então vistos como de menor importância ou que foram mesmo completamente esquecidos, emprestando a voz a bocas subalternas e até agora inaudíveis.

Para Jacques Derrida, a desconstrução leva a uma prática política, a uma tentativa de desvendar ou desmascarar a lógica com a qual um determinado sistema mental - e com ele todo um sistema de estruturas políticas e instituições sociais - mantém a todo custo o seu poder.

Passado infame

A imagem do negro bom de bola, da farra e da festa, da mulata tipo produto de exportação - tudo isso tenta mascarar o fato de o negro estar numa posição de predominante desvantagem. Essa desvantagem tem suas raízes: com que intensidade o trauma da escravidão deixa marcas profundas na autoprojeção do afrobrasileiro está muito patente nestes versos de OLIVEIRA SILVEIRA, poeta negro do Rio Grande do Sul. Ele encontrou suas origens - como sugere o título de um dos seus poemas - tanto No leste/ no mar em imundos tumbeiros, / em malditos objetos / troncos e grilhetas, como também nos lanhos de minha alma / em minha gente escura/ em meus heróis altivos.

Esse passado, infame e desditoso, não pode nem deve ser silenciado: Passado infame,/ vou te charquear o lombo a laço./ Passado infame/ vou te sujar a cara a cuspe/ vou te moer o corpo a ferro. Mas te quero bem vivo/ pra renovar meu ódio justo/ e manter alto o meu orgulho (OLIVEIRA SILVEIRA, Passado infame).

Foram milhões os africanos por força levados para trabalharem no "novo mundo". E se a literatura nacional festeja e aplaude o magistral poema de Castro Alves, Navio Negreiro, ignora ou desconhece outras manifestações poéticas de imenso valor que expressam numa visão de dentro, o mesmo drama. A escravatura, a vergonha imensa na história da humanidade, levou ao brutal arrastamento de milhões de africanos para a América e foi comparada pelo poeta gaúcho a uma "charqueada grande":

Um talho fundo na carne do mapa: Américas e África margeiam/ Um navio negreiro como faca:/ mar de sal, sangue e lágrimas no meio// [...] e sal e sol e vento sul no corte/ de uma ferida que não seca nunca (OLIVEIRA SILVEIRA, Charqueada grande).

A interpretação da história hegemônica, povoando os livros infantis (e não só) da imagem do escravo passivo, cordato e bondoso, amoldado aos seus senhores, as "Mãe Preta", e os "Pai João" encontra viva resistência por parte dos afrobrasileiros contemporâneos que não querem se identificar senão com os heróis que se rebelaram contra o cativeiro: Sem essa de mãe-preta e pai-joão/ eu quero é o passado bom! // Na vontade mais funda/ e vulcânica de mim/ eu quero é o passado bom! / Eu quero o passado bom/ do quilombo dos negros/ livres no mato e de lança na mão/ Da guerra na Bahia - da negrada transbordando das casas/ derramando-se na rua/ de pistola e facão! ((OLIVEIRA SILVEIRA, Quero o passado bom).

Palmares reinventado

Toda a época colonial conheceu a reação ao regime escravocrata, uma cadeia ininterrupta de sublevações e resistência à ordem estabelecida pelo regime senhorial. O primeiro registro de que se tem notícia foi o de um quilombo na Bahia no ano de 1575. Daí em diante, o protesto contra trabalho forçado e a perda de liberdade não mais cessou. Não se tratou de pequenas revoltas pontuais e raras, como quer deixar crer a historiografia oficial, mas permanentes e diversificadas formas de resistência e de protesto, de inconformismo e de tentativas não só de fuga mas de reorganização da ordem social surrupiada pelo tráfico negreiro de Norte ao Sul do Brasil.

E é graças aos intelectuais negros brasileiros que se está resgatando contemporaneamente esse capítulo da história do Brasil, um dos temas preferidos pela literatura afro-brasileira. Palmares, o maior dos quilombos, símbolo da resistência e do orgulho negro restaurado, é assim cantado, entre outros poemas: Eu não te esqueço, meu povo/ se Palmares não vive mais/ inventemos Palmares de novo (José Carlos Limeira, Quilombos)

Não só a conclamação à revolta, mas sobretudo uma heroização dos antepassados ajuda a manter bem alto o orgulho e se envolve numa enorme força lírica. Zumbi, o grande herói dos quilombos, o senhor dos caminhos, como se expressa Jônatas C. da Silva, poeta baiano, que vê como tarefa do poeta: Resgatar tua presença/ tua firmeza de propósito/ de amor e liberdade/ pela raça (Zumbi é senhor dos caminhos).

E a exemplo do que aconteceu no passado, ainda: É preciso/ que se galgue/ a poeira levantada/ e se ache entre as palmeiras/ lanças/ guerreiras/ intactas (Abelardo Rodrigues, Em busca de Palmares).

O dia da morte do grande guerreiro é festejado hoje no Brasil inteiro, mais uma vez devido à iniciativa de grupos negros: Dia vinte de novembro/ entre as palmeiras do Palmar/ último grito de guerra no ar/ Dia vinte de novembro,/ entre as montanhas do Palmar/ os duros músculos do herói/ guiando seu braço ágil/ na luta desigual/ [...]) Dia vinte de novembro,/ entre mensagens do Palmar/ tambores de orgulho e brio/ conclamando a lutar ((OLIVEIRA SILVEIRA, , Vinte de Novembro).

É o Dia Nacional da Consciência Negra, em franca oposição às comemorações do treze de maio.

Izabel versus Zumbi

Na busca de possíveis recursos para manter a memória viva, por parte do poder hegemônico no Brasil, do que lhes interessa guardar relativo ao tempo da escravidão e ao período logo depois, sobressai o grande respeito que é prestado àquela que é considerada a mãe benemérita e salvadora dos cativos, a Princesa Isabel. Mas a famosa Lei Áurea não passou de um ato formal sem de fato conseqüências positivas para os que nela se enquadravam. Os afrodescendentes, 111 anos mais tarde, continuam sob os humilhantes açoites da pobreza, da exploração do trabalho, do desrespeito aos seus direitos.

Já em 1970, o poeta negro gaúcho (OLIVEIRA SILVEIRA, admoestava: Treze de maio - traição/ Liberdade sem asas/ Fome sem pão (13 de Maio).

A abolição da escravatura não foi seguida por medidas sociais nem econômicas que possibilitassem aos recém libertos um novo começo de vida. A respeito, Adão Ventura, de Minas Gerais, assim se exterioriza: Minha carta de alforria/ não me deu fazendas nem dinheiro no banco,/ nem bigodes retorcidos (Adão Ventura, Negro Forro).

Muito pelo contrário, afirma o poeta mineiro: Minha carta de alforria/ costurou meus passos/ nos corredores da noite/ da minha pele (ebd.).

Ou, como o paulista Paulo Colina, ironicamente conclui: A Princesa esqueceu de assinar nossa carteira de trabalho (Pressentimento).

A amarga realidade do quotidiano da população afro-brasileira reforça a dúvida na eficiência do 13 de maio. Assim, Éle Semog, poeta negro do Rio de Janeiro, manda um "lembrete": Liberdade se toma / Não se recebe./ Dignidade se adquire/ Não se concede (Se ela faz eu desfaço).

Mas o povo não se ilude e reage a seu modo. O aviso é claro e preciso: Quilombo não se destrói com tiro e tapeação/ quilombo é calombo grande que guarda a semente viva/ quilombo é riso rasgado/ ungüento pressa ferida/ feita com faca branca herdada por iô-iôs (Cuti, Resposta).

Em outro poema do mesmo autor, ele admoesta: Que os ancestrais apontem nosso melhor caminho!"/ [...] ninguém negue sua herança de umbigo!/ [...]. Há uma estrada a ser percorrida do lamento passado ao riso futuro/ por sobre as costas do tempo lanhadas de sofrimento/ [...]. Vamos destapar bocas de escravos sufocadas em cada/ poro do povo (Cuti, Veio).

Ou ainda: É tempo [...] reabrir [...] os espaços do quilombo/ [...] jogar lenha na fogueira da memória pra que haja luz e calor/ e ouvir histórias vividas de gente encarquilhada no pito/ e na palha do cigarrinho (Cuti, Ventania).

Muito se teria ainda a registrar tanto na poesia como na prosa afrobrasileira. Mas passemos ao outro elemento da nossa comparação.

A prosa contemporânea na Guiné-Bissau

Conquistada a independência, as novas burguesias e as novas elites estatais africanas conseguiram estabelecer um sistema de conservação do poder que passou a funcionar a todo preço, baseado na repressão, no partido único e no governo do "homem forte". O resultado foi que em muitos países se instalou uma oligarquia corrompida, preocupada com o seu próprio enriquecimento e com as suas próprias vantagens, enquanto que o povo continuou nas mesmas dificuldades, lutando por uma sobrevivência material e moral, cada vez mais miserável. As esperanças existentes outrora, quando o fim da colonização, cada vez mais próximo e concreto, animava aos que lutavam pela libertação, acenando para um mundo de igualdade e justiça, foram substituídas pela frustração, pelo derrotismo e pelo acomodamento3. Tal estado de espírito é comum a toda a África negra.

Na galeria de personagens de Abdulai Sila destaca-se, no seu terceiro e mais recente romance, intitulado Mistida, um desfile alucinante de figuras absurdas: Amambarka, Nham-Nham, Yem-Yem. Sobressai-se o aberrante e assustador Amambarka, parricida, ganancioso, viciado e execrável, cujos traços repugnantes foram hiperbolizados pelo romancista até a exaustão (cf. p. 87-96). Esse nome foi tirado da língua mandinga, sendo um lexema que tem conotação de coisa ruim, do que não presta. Nham-Nham, onomatopéia indicadora do ato de comer, é um ser repugnante e alienado, cego pelo poder, entorpecido pela bajulação, idiotizado mas perigoso, completamente dependente do diabólico Amambarka. Yem-Yem, o "carrasco", é outra figura intangível, enredado na busca da palavra esquecida (ibid., p. 161), aterrorizador das pessoas (ibid., p. 171).

Esses seres chocantes, porém, foram inspirados em pessoas reais, deformadas e caricaturadas, para os menos avisados impossíveis de serem reconhecidas mas nem por isso menos verdadeiras nem menos ameaçadoras, pois faz parte da arte de convencer lançar mão de recursos do horror. Os protagonistas de Mistida, aparentemente absurdas personagens, são verdadeiros atores da sociedade atual - e não só da Guiné-Bissau - e estão, cada um a seu modo, em busca de "estratégias individuais postas em jogo à procura de saídas e novos sentidos que permitam sobreviver à desestruturação", como disse Teresa Montenegro no prefácio. Mais uma vez, apesar dos horrores que enchem este seu terceiro livro, Sila lança sua mensagem de esperança, de teimosa esperança: existe uma perspectiva para seu sofrido país. Apesar dos montões de lixo, material ou humano, há as Mama Sabel, as Mbubi, as Ndani e as Djiba Mané, personagens femininas fortes e até certo ponto contraditórias, sumamente positivas, com as quais o autor se identifica e que personificam a comunidade subalterna, sem poder, mas vigilante e altiva.

Em Mistida, Abdulai Sila escolheu as vias oblíquas do absurdo e do paroxismo para pôr a descoberto o indizível, aquilo que, embora não tivesse sido esquecido, estava obliterado e silenciado. Esse caminho ziguezagueante tornou-lhe possível recordar um passado recente cheio de contradições e afrontar um presente já agonizante que se queria (ou ainda quer?) eternizar no futuro. Quem está seguindo os acontecimentos atuais na Guiné-Bissau pode, mais do que nunca, captar os lances terrivelmente proféticos de Mistida.

Filinto de Barros: acerto de contas com o passado?

Filinto de Barros afirma que seu romance Kikia matcho não passa de um pequeno exercício de ficção. Nem história, nem sociologia, nem etnologia, nem política, tão somente uma abordagem que se pretende dinâmica do processo de síntese sócio-cultural de um Povo (cf. Barros, 1998, p. 7).

O título é a designação crioula para o mocho e a essa ave são atribuídas na Guiné-Bissau propriedades diversas: pode ser mensageira do bem e do mal, mas sobretudo é ligada a maus presságios e à má sorte. Através do kikia e da sua simbologia, Filinto de Barros introduz o leitor e a leitora no mundo mágico e mítico africano ao mesmo tempo em que, pela interação das personagens, estabelece a ponte entre o passado e o presente.

Em seu conjunto, o livro Kikia matcho encerra uma soma de informações sobre o processo da independência e os primeiros passos de um Estado em formação. Essas informações são a razão de ser da obra, a estória constituindo apenas um pretexto. Ao mesmo tempo em que informa, ativo participante que foi da gestação e do momento desse parto, Filinto de Barros mobiliza os diferentes níveis da narrativa, direcionando-os tanto para o exercício dialético da compreensão do processo como para o julgamento dos seus resultados. Informação a nível do passado e interpretação a nível do presente, o romance deixa entrever sombrias perspectivas para o futuro. É sobretudo uma constatação dos acontecimentos contemporâneos com um olhar para o já acontecido, com o fito de esclarecer, explicar a situação atual do país.

O abandono sofrido pelos antigos combatentes da liberdade da pátria, cujo soldo não basta para um saco de arroz, é mostrado bem cruamente em Kikia matcho e seria um exemplo do desmascaramento intencionado pelo romancista Filinto de Barros.

Uma lembrança presente no coração do povo, que não faz parte da herança hegemônica, foi ainda evocada por Filinto de Barros que pôs a descoberto o fato do combatente morto ter perpetrado atos menos nobres, vergonhosos mesmos, não coadunando com a aura de heroismo que sempre envolve os "combatentes da liberdade da pátria". O autor ousou assim confessar o lado podre da gloriosa luta da libertação nacional, o abuso nunca mostrado às claras da utilização indevida das armas, evidenciando a perversão da "cultura da guerra", presente não só no campo inimigo. O processo de revirar ou reverter certas ambigüidades morais e factuais, cristalizadas em poderosos mitos patrióticos, faz parte da construção social da realidade, para usar a expressão divulgada a partir de Berger e Luckmann na Sociologia4. Ela é desmontada aqui e confrontada com uma outra visão, oposta e desafiadora.

Somente alguns poucos meses após a publicação desse romance, a 7 de junho de 1998, como já disse, eclodiu no país uma revolta no seio dos grupos dirigentes, entre representantes dos heróis da libertação transformando-se em guerra aberta e dolorosa que, depois de onze meses de sempre renovados conflitos armados, encontrou uma solução, que esperemos seja duradoura, a 7 de maio deste ano de 1999. Os presságios do Kikia Matcho ou os horrores acumulados em Mistida parece se terem confirmado. O sangrento embate entre fracções do exército nacional e contra o povo que conta entre os mais pobres do mundo, relança o questionamento sobre a legitimidade do regime tido como revolucionário, há quase trinta anos no poder, e sobre seus dirigentes, em grande parte os mesmos desde a independência. O legendário e carismático PAIGC está onipresente no romance de Filinto de Barros. Os donos do poder estão caricaturados até a desfiguração no romance Mistida, de Abdulai Sila. A revolta militar encabeçada pelo chefe do Estado Maior do Exército, General Assumane Mané, contra o governo dirigido pelo Presidente João Bernardo ("Nino") Vieira é expressão da crescente insatisfação e da decepção aqui tantas vezes já exteriorizadas, da parte dos antigos combatentes pela liberdade da pátria, compartilhadas pela grande maioria da população.

Esses recentes acontecimentos na Guiné-Bissau estão contribuindo para que o discurso oficial hegemônico se esvazie e perca a sua aura, reiterando de forma dramática a triste atualidade da urgência de uma reinterpretação da História, reflexão essa encetada pelos romancistas pioneiros Abdulai Sila e Filinto de Barros.

Considerações finais

Todos os escritores aqui referidos têm em comum uma tarefa de recuperação da africanidade e da dignidade perdidas, de procura e de afirmação da identidade nacional: tanto os afrobrasileiros como os guineenses, cada grupo a seu modo, cada autor com seu estilo próprio, com sua voz única e específica. Trata-se de uma literatura exortativa, sim, literatura engajada, literatura social, no seu sentido mais amplo, mas literatura exercício estético de beleza e busca do eu e do nós, mais profundo e mais verdadeiro, que têm a ver com raízes, umbigo, magma; literatura incitamento a um mergulho dentro de um passado doloroso e de difíceis lembranças, incitamento à empatia, ao sentir com, ao fazer com, incitamento à adesão, ao "concerto do djunta mon", de que fala o escritor guineense Tony Tcheka (1996:69).

O passado, tanto o passado bom como o passado infame, tem que continuar sendo relembrado como uma parte da identidade do africano assim como do afrobrasileiro. Embora consciente de que um número cada vez mais numeroso de afrodescendentes tenham hoje em dia alcançado um nível social e financeiro muito elevado e a franja dos bem sucedidos seja cada vez mais larga, no mesmo poema Cuti não deixa esquecer: Hoje é amanhã e ontem [...] / chicotes modernos não só relembram são chicotes/ que batem que rendem mais aos fundos senhoriais (Cuti, Resposta).

Cuti, que sempre, em todos os seus escritos, convida e incita à reflexão, admoesta: Quem disse [...] que é preciso calar a voz dos ancestrais? (ebd).

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Notas

1. Sobre a ficção e a literatura guineense em geral, cf. Augel 1998.

2. Oswaldo de Camargo publicou em São Paulo seu primeiro livro, Um homem tenta ser anjo, já em 1958; de (OLIVEIRA SILVEIRA, no Rio Grande do Sul, apareceu Germinou, em 1962. Cuti, em 1976, deu à estampa em São Paulo seus Poemas da carapinha. Os Cadernos Negros, publicação coletiva que já tem vinte e dois números, começou em 1978. Para maior conhecimento da produção literária afrobrasileira, cf., entre outros, Zilá Bernd 1984, 1987 e 1992.

3. Sobre o assunto, cf. Guy Ossito Midiohouan, L'idéologie dans la littérature négro-africaine d'expression française, Paris: L'Harmattan, 1986:208 e ss.

4. P. L. Berger e T. Luckmann foram os teorizadores do construtivismo que considera os fenômenos sociais como criações da sociedade e não existentes por si só.

14 de novembro de 2006

AGÊNCIA BRASIL (www.agenciabrasil.gov.br)

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Brasília - O professor Oliveira Silveira, um dos idealizadores do Dia da Consciência Negra no Brasil (20 de novembro), destaca importância de lutas dos negros em seminário no Centro de Excelência em Turismo (CET) da Universidade de Brasília (UnB). Foto: Marcello Casal Jr./ABr

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Brasília - O professor Oliveira Silveira, um dos idealizadores do Dia da Consciência Negra no Brasil, Jaques Gomes de Jesus, assessor de Diversidade e Apoio aos Cotistas da Universidade de Brasília (UnB) e o coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros, Nelson Inocêncio, participam de seminário no Centro de Excelência em Turismo da universidade. Foto: Marcello Casal Jr./ABr

26 de novembro de 2004

MUNDO NEGRO: LITERATURA (www.mundonegro.com.br)

CEAFRO promove Conferência e Lançamento de livro em Salvador, nos dias 29 e 30 de novembro

Para refletir sobre a situação do/a poeta negro/a brasileiro/a, produção e publicação de suas obras no Brasil, o CEAFRO estará realizando no próximo dia 29 de novembro, a partir das 18h30, a conferência LITERATURA NEGRA – Perspectivas . O evento acontecerá na sede do CEAFRO, localizada na Praça Inocêncio Galvão, 42, Largo Dois de julho. Na oportunidade o poeta gaúcho Oliveira Silveira será homenageado. Na década de 70 Silveira fez parte, em Porto Alegre , do grupo Palmares, responsável pela criação do 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, oficializado a partir de 1978 pelo Movimento Negro Unificado (MNU). O CEAFRO é um programa do Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que desenvolve projetos para educação e profissionalização para a igualdade de raça e gênero.

Já no dia 30 de novembro, às 18h30, acontecerá o lançamento do livro TERRAS DE PALAVRAS , na Casa de Angola, situada na Praça dos Veteranos, 5, Baixo dos Sapateiros (em frente ao Corpo de Bombeiros). A obra está sendo editada através da parceria entre a Editora Pallas , e a recém criada Afirma Publicações , selo editorial da Afirma - Revista Negra On-line . A obra é uma antologia de autores contemporâneos do Mundo Africano – afro-brasileiros, sobretudo. Nessa iniciativa o CEAFRO conta com o apoio da Casa de Angola na Bahia, Fundação Palmares e Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR).

O livro reúne contos de diversos estilos e temas de poetas de varias parte do país. Um deles é o baiano Lande Onawale. Além dele, TERRAS DE PALAVRAS publica contos de Kátia Santos, Esmeralda Ribeiro, Márcio Barbosa, Eduardo H. P. de Oliveira, Cuti, Marco M. Costa, Nei Lopes, Mayra Santos-Febres e Micheline Coutubaly. A obra foi organizada por Fernanda Felisberto, Mestre em Estudos Africanos e coordenadora do selo Editorial Afirma.

PROGRAMAÇÃO
Dia - 29/11/2004
Horário 18:30h
Local: Auditório Milton Santos – CEAFRO

CONFERÊNCIA :
Literatura Negra – Perspectivas
Debatedoras
Esmeralda Ribeiro - QUILOMBHOJE LITERATURA (SP)
Fernanda Felisberto - AFIRMA PUBLICAÇÕES (RJ)
Florentina Souza - INSTITUTO DE LETRAS DA UFBA

Coordenador - José Carlos Limeira - Poeta
Homenagem - Oliveira Silveira

Dia - 30/11/2004 Horário 18:30h Local: CASA DE ANGOLA

Lançamento: TERRAS DE PALAVRAS – Contos

10 de novembro de 2003

COM CIÊNCIA: O BRASIL NEGRO (www.comciencia.br)

"O SOL DA LIBERDADE": MOVIMENTO NEGRO E A CRÍTICA DAS REPRESENTAÇÕES RACIAIS

por Osmundo de Araujo Pinho

"...Is arising. The sun is arising [1]" . A mensagem otimista e radiante de Bob Marley expressa bem a transfiguração típica das formas culturais do Atlântico Negro que transcendem a dor e o sofrimento do "terror racial" em formas de representação de uma identidade em trânsito fundada na luta por libertação e dignidade (Gilroy, 2001). Estas formas são parte integrante da luta e do ambiente político simbólico e material que ao ser representado se inscreve. Ora, não existindo saber político fora de sua representação o momento da ação política "deve ser pensado como parte da história de sua forma de escrita" (Bhabha, 2000: 15). Não existe um campo exterior à representação para pensar o conjunto dos problemas da emancipação e da dominação destacados de sua contingência e de sua materialidade, nesse sentido, este texto faz parte da história de escritura dedicada à reinvenção de posições de sujeito afrodescendentes no Brasil do começo do século XXI.

Neste artigo, procuro descrever a luta pela emancipação racial como atravessada pela emergência de uma consciência insurgente afrodescendente que se materializa sob duas formas gerais: primeiro, na "atividade consciente" dispersa e complexa, agenciada sob a égide do movimento negro, conjunto de agentes sociais negros ou afrocentrados que elegeram definir sua identidade como essencialmente política ou voltada para produzir um efeito estrutural sobre a sociedade brasileira que fosse uma realocação de poder e benefícios públicos. Em segundo lugar, esta consciência insurgente ensaia manifestar-se como a coagulação de uma perspectiva crítica que em alto grau de reflexividade faz a crítica radical das políticas de representação racial como instrumentos de consolidação hegemônica nas artes e nos discursos eruditos ou competentes. Posta em ação nos movimentos sociais negros ou em peças de intervenção discursiva estratégica, essa emergência talvez concorra para a aurora de um novo dia no qual o "sol da liberdade" brilhe para todos.

A gênese dos modernos movimentos sociais negros pode ser descrita como pertencendo a duas frentes históricas. De um lado, podemos descrever uma tradição de organização social do meio negro que remonta ao período colonial como uma trajetória ocasionalmente vista como mais ou menos independente e com identidade própria. De outro lado, podemos ver que o movimento negro moderno, ou seja, aquele surgido no contexto do declínio do regime militar a partir dos anos 70, associa-se a um movimento mais amplo de reorganização dos movimentos sociais e de politização da sociedade e do cotidiano (Figueiredo&Cheibub, 1986-87; Fontaine, 1985; Gonzales, 1985). Estas narrativas sobre a organização política no "meio negro" se alimentam de fontes tanto êmicas quanto éticas. Pesquisadores acadêmicos, ativistas negros e pesquisadores acadêmicos que são ativistas negros têm inscrito e proposto interpretações sobre a história de organização e resistência dos afrodescendentes no Brasil. A narrativa vista com mais simpatia e na verdade quase entronizada como a oficial do ponto de vista mais próximo de uma versão "ativista" é aquela que enfatiza a continuidade da "resistência" negra, nesta narrativa o quilombo de Palmares e o seu último líder militar Zumbi, derrotado e morto pelo sangüinário bandeirante Domingos Jorge Velho em 1695, é o marco histórico fundamental [2]. Na verdade, o quilombo de Palmares, e a forma genérica "quilombo", tem sido ressignificado fortemente a partir da reorganização do movimento negro nos anos 70. O quilombo passa a representar um modelo alternativo de organização da sociedade que desafiou os poderes coloniais e reinventou um mundo africano - no caso de Palmares, banto - baseado no trabalho livre, na propriedade comum da terra, em valores tradicionais holísticos etc. A utopia afrodescendente passa, assim, a incorporar um modelo histórico como referência no passado para a possibilidade de futuro. Parece claro como a estratégia de se contar a história da organização autônoma negra faz parte de uma estratégia mais ampla de refundação das bases interpretativas do presente que dê lugar a uma perspectiva sobre o passado nacional e sobre o lugar do negro nesse passado que fundamente uma capacidade insurgente de crítica e de superação da opressão e da desigualdade.

Quando, no contexto de redemocratização da sociedade e de reorganização dos movimentos negros, o poeta OLIVEIRA SILVEIRA do Grupo Palmares do Rio Grande do Sul propôs o 20 de novembro - aniversário da morte de Zumbi - como Dia Nacional da Consciência Negra, o 13 de maio passou a ser crescentemente anatemizado como a celebração de uma falsa abolição e o 20 de novembro tornou-se a data principal do reinvestimento simbólico/histórico da política afrodescendente no Brasil (Nascimento &Nascimento, 2000; Mendonça, 1996; Pinto, 1993; 1990). Hamilton Cardoso, um dos mais notáveis intelectuais negros do período, procurou explorar todas as conseqüências políticas do reconhecimento de Zumbi [3] como herói nacional em novembro de 1985, principalmente aquelas que sinalizam para o aspecto trans-étnico da luta de libertação quilombola, nesse sentido "resgatar" Zumbi:

"É um fato cultural porque é um fato político; é um fato político porque rompe com a política cultural dominante. Reflete, na verdade, outra forma, de engajamento político do militante negro nos processo sociais. Revela um ponto de vista humano, capaz de romper as fronteiras da raça. Arrebentando a geografia da pele e da cor"(Cardoso, 1986: 66).

Durante o regime militar inaugurado com o golpe de 31 de março de 1964 diversos grupos se organizaram em todo o país. No Rio Grande do Sul, o já citado Grupo Palmares. No segregado interior de São Paulo assistiu-se uma intensa movimentação com o grupo Evolução de Campinas fundado por Thereza Santos e Eduardo Oliveira e Oliveira em 1971 e o Festival Comunitário Negro Zumbi (FECONEZU) que existe desde 1978 até os dias de hoje. Na capital paulista o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO) fundando por Abdias do Nascimento em 1980 no seu retorno do exílio. No Rio de Janeiro o Instituto de Pesquisa de Cultura Negra (IPCN) e a Sociedade de Estudo de Cultura Negra no Brasil (SECNEB), A Sociedade de Intercâmbio Brasil África (SINBA), o Grupo de Estudos André Rebouças, etc. Na Bahia o Núcleo Cultural Afro-Brasileiro, o Grupo de Teatro Palmares Iñaron e assim por diante. A confluência de determinados fatores fez com que alguns destes e outros grupos fundassem em 18 de junho de 1978 o Movimento Unificado contra a Discriminação Racial (MUCDR), realizando em seguida um ato público nas escadarias do Teatro Municipal em São Paulo no dia 7 de julho. O MUCDR foi depois rebatizado em 23 de julho como Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial (MNUCDR), em dezembro de 1979 durante o 1o Congresso realizado no Rio de Janeiro passa a chamar-se de Movimento Negro Unificado (MNU) nome que conserva até hoje(Nascimento & Nascimento, 2000; Barcelos, 1996; Cardoso, 2002; Félix, 1996; Hanchard, 1994). O ato do dia 7 de julho foi convocado em protesto contra a morte do jovem negro Robson Luís. O jornal "Versus" noticiou com detalhe o caso Robson Luís e o protesto que marcou a aparição pública do novo movimento negro brasileiro. No número 22 de junho-julho de 1978 lemos que por roubar com amigos que vinham bêbados de uma festa três caixas de frutas, Robson Luís, 21 anos, casado, morador da Vila Popular, morreu no dia 28 de abril de 1978 no Hospital de Clínicas, seu rosto estava desfigurado e seu escroto fora arrancado na 44ª Delegacia de Polícia em SP. Segundo apurou o jornal, o delegado enquanto batia dizia: " Negro têm que morrer no pau" (Versus, 1978). O ato público reuniu, além disso, atletas indignados com o Clube de Regatas Tietê em São Paulo que impedira quatro adolescentes negros, atletas de voleibol, de treinarem no clube. O jornal Versus conta como os meninos foram barrados pelo porteiro e que o técnico ao reclamar ouviu de um dos diretores: "Se deixar um negro entrar na piscina cem brancos saem". (Versus, julho-agosto, no 23, 1978: 33).

É preciso considerar com cuidado o contexto de surgimento destes novos atores sociais negros como o MNU e demais movimentos e organizações semelhantes surgidas no período ou depois. Estávamos assistindo neste momento o declínio do poder dos militares e a preparação para redemocratização do país. Diversos outros agentes sociais se constituíam e colocavam neste momento, alguns se recompondo, como o movimento sindical, outros fazendo sua aparição inaugural como sujeitos políticos na cena pública como o Movimento Homossexual( MacRae, 1982; 1990). É neste ambiente que a narrativa histórica de longa duração para o protagonismo negro que descrevi muito resumidamente acima se encontra com outra narrativa de fundação, esta preferida por analistas "exteriores" ao campo de ação propriamente político em questão. Esta narrativa associa o surgimento do Movimento Negro Moderno aos chamados Novos Movimentos Sociais. Estes novos atores sociais, surgidos neste período, se definem principalmente como novos interlocutores que forçam a entrada no proscênio público, em um processo de redefinição dos debate pela definição de temas e de pautas comuns a toda sociedade, assim considerados como questões públicas. Os movimentos sociais negros - culturais e políticos - parecem se enquadrar plenamente neste processo. Um processo marcado pelo redirecionamento de questões da esfera privada - a cor da pele, o racismo operando no plano da relações interpessoais, a religião Afro-Brasileira, o cotidiano imediato e periférico das bairros negros, etc. - para a arena pública, através da inclusão de discursividades negras, como um novo sujeito, como um pólo ou eixo de articulação de miríades de vozes que se encontram e se cristalizam neste processo de enunciação coletiva (Costa, 1997a; 1997b; Sader, 1995).

NOTAS

Bob Marley, "Rainbow Country".
Sobre quilombos contemporâneos e a politização do quilombo cf. tb. Arruti, 1997; Vogt & Fry, 1996; Ratts, 2000 e outros.

Sobre o "mito de Zumbi" ver também, Anderson, 1996. Para a reflexão sobre Zumbi no Movimento Negro cf. tb. Cardoso, 2000 e Fernandes, 1989.


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Osmundo de Araujo Pinho é pesquisador do Centro de Estudos Afro-Brasileiros, da Universidade Cândido Mendes e bolsista do Programa GRAL (Gênero Reprodução Ação Liderança) da Fundação Carlos Chagas/John D. and Catherine T. MacArthur Foundation. E-mail: opinho@candidomendes.br